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21/06/2026

A farsa eleitoral da redução da maioridade penal: O que não estão contando ao povo


Por *Elvécio Andrade

 

De tempos em tempos, especialmente quando se aproxima o período eleitoral, ressurge no Congresso Nacional uma velha pauta capaz de despertar a indignação popular: a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. Nas redes sociais e em discursos inflamados, alguns políticos correm para anunciar que a medida foi "aprovada" ou que está prestes a virar realidade. Mas a verdade é bem diferente da propaganda eleitoral que tentam vender ao eleitorado.

 

É importante esclarecer que a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que pretende reduzir a maioridade penal ainda não foi aprovada. O que ocorreu foi apenas sua aprovação na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), uma das etapas iniciais da tramitação legislativa. Para que a proposta avance, ela ainda precisará passar por uma comissão especial e, posteriormente, ser aprovada por pelo menos 308 deputados federais, em dois turnos de votação no plenário da Câmara dos Deputados. Depois disso, seguirá para o Senado Federal, onde enfrentará novas discussões e votações rigorosas. Ou seja, está muito longe de se tornar realidade.

 

O que muitos parlamentares evitam explicar aos seus eleitores é que existe uma enorme controvérsia jurídica sobre a constitucionalidade dessa proposta. Diversos especialistas em Direito Constitucional sustentam que a maioridade penal fixada aos 18 anos pelo artigo 228 da Constituição Federal integra o conjunto dos direitos e garantias fundamentais protegidos pelas chamadas cláusulas pétreas.

 

As cláusulas pétreas são dispositivos constitucionais que não podem ser abolidos nem modificados por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição. Elas representam a espinha dorsal da Constituição brasileira e foram criadas justamente para impedir que maiorias políticas ocasionais alterem direitos considerados essenciais.

 

O artigo 228 determina que os menores de 18 anos são penalmente inimputáveis, estando sujeitos à legislação especial prevista no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). Para muitos juristas, essa proteção constitui uma garantia individual e, por isso, está protegida contra alterações por emenda constitucional.

 


Não por acaso, instituições como o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) do Rio de Janeiro já manifestaram entendimento de que a redução da maioridade penal por meio de PEC seria inconstitucional. Segundo essa interpretação, uma mudança dessa natureza somente poderia ocorrer mediante a elaboração de uma nova Constituição por uma Assembleia Nacional Constituinte.

 

E aqui surge a pergunta que muitos cidadãos deveriam fazer: se tantos parlamentares conhecem esses obstáculos jurídicos, por que insistem em apresentar e defender essas propostas? A resposta, segundo críticos dessa prática, está menos na busca por soluções reais para a segurança pública e mais na exploração eleitoral de um tema que desperta forte emoção popular. Afinal, a revolta da sociedade diante da criminalidade praticada por adolescentes é legítima e compreensível. O problema surge quando essa indignação é utilizada como ferramenta de marketing político.

 

Muitos políticos sabem que boa parte da população não acompanha os detalhes da legislação, não conhece os limites constitucionais e acaba acreditando em anúncios triunfalistas que, na prática, dificilmente produzirão os efeitos prometidos. Assim, apresentam propostas de grande apelo popular, fazem discursos contundentes, gravam vídeos para as redes sociais e tentam colher dividendos eleitorais, mesmo sabendo que a questão está longe de ter uma solução simples.

 

O eleitor merece respeito e informação verdadeira. Debater segurança pública é necessário. Discutir medidas para enfrentar a criminalidade juvenil também é legítimo. Mas transformar um tema complexo em propaganda eleitoral, vendendo ilusões e omitindo os obstáculos jurídicos existentes, não contribui para resolver os problemas do país. Pelo contrário: apenas alimenta falsas expectativas e aumenta a descrença da população na política.

 

Em uma democracia séria, o cidadão deve ser informado com transparência, e não tratado como massa de manobra para projetos eleitorais. Afinal, combater a violência exige mais do que slogans de campanha; exige honestidade intelectual, responsabilidade política e respeito à inteligência do povo brasileiro. Essa PEC é tão enganosa quanto da castração química.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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