Por *Elvécio Andrade
A apreensão de um jato
executivo de luxo no Aeroporto Internacional Silvio Pettirossi, em Assunção, no
Paraguai, no dia 30 de maio de 2026, expõe uma contradição que muitos preferem
ignorar. A aeronave, registrada nos Estados Unidos e avaliada em cerca de US$
3,6 milhões, transportava nada menos que 261,6 quilos de maconha premium
escondidos em malas. Três cidadãos estadunidenses foram presos, enquanto o
piloto, um empresário estoniano, conseguiu fugir e permanece foragido.
O caso chama atenção não
apenas pelo volume da droga ou pelo luxo da operação criminosa, mas pela
nacionalidade dos envolvidos e pelo país de origem da aeronave. Entre os
detidos estava até mesmo um cidadão conhecido por participar e vencer uma
competição de aviação promovida pelo famoso youtuber Mr Beast, mostrando que o
tráfico internacional não escolhe perfil social, profissão ou fama.
O episódio escancara uma questão
que frequentemente fica fora dos discursos oficiais: os Estados Unidos gostam
de se apresentar como árbitro moral do planeta, apontando dedos para governos
estrangeiros, classificando organizações criminosas de outros países como
terroristas e oferecendo receitas para combater a criminalidade internacional.
Entretanto, quando se observa a realidade dentro de suas próprias fronteiras, o
cenário é bem menos confortável.
Os Estados Unidos possuem
algumas das organizações criminosas mais poderosas e influentes do mundo,
responsáveis por atividades que vão do tráfico de drogas à lavagem de dinheiro,
do contrabando à violência organizada. Além disso, o país figura entre os
maiores mercados consumidores de drogas do planeta, uma demanda gigantesca que
alimenta cadeias criminosas em diversos continentes.
A lógica é simples: sem
consumidores, não haveria fornecedores. Sem um mercado disposto a pagar bilhões
de dólares por substâncias ilícitas, grande parte do tráfico internacional
perderia sua razão de existir. Ainda assim, o discurso oficial costuma
concentrar suas críticas em nações estrangeiras, como se o problema estivesse
sempre do outro lado da fronteira.
O jato apreendido no Paraguai
é mais uma demonstração de que o crime organizado não possui nacionalidade fixa
e que nenhuma potência mundial está imune à participação de seus cidadãos em
atividades ilícitas. A diferença é que alguns países são constantemente
julgados e rotulados, enquanto outros parecem desfrutar do privilégio de
apontar os erros alheios sem enfrentar com a mesma intensidade os próprios
problemas.
O combate ao narcotráfico
exige cooperação internacional, seriedade e autocrítica. Nenhum país pode se
apresentar como salvador do mundo enquanto ignora as falhas estruturais que
ajudam a alimentar o próprio sistema criminoso que afirma combater. Casos como
o do jato apreendido no Paraguai servem como lembrete de que a luta contra o
crime começa dentro de casa, antes de qualquer tentativa de dar lições ao
restante do planeta.
*Elvécio Andrade é
radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos
Constitucional e Administrativo.
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