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10/06/2026

Jato do tráfico, moral de fachada. A hipocrisia dos Estados Unidos exposta no Paraguai

O jato estava abarrotado de maconha premium

Por *Elvécio Andrade

 

A apreensão de um jato executivo de luxo no Aeroporto Internacional Silvio Pettirossi, em Assunção, no Paraguai, no dia 30 de maio de 2026, expõe uma contradição que muitos preferem ignorar. A aeronave, registrada nos Estados Unidos e avaliada em cerca de US$ 3,6 milhões, transportava nada menos que 261,6 quilos de maconha premium escondidos em malas. Três cidadãos estadunidenses foram presos, enquanto o piloto, um empresário estoniano, conseguiu fugir e permanece foragido.

 

O caso chama atenção não apenas pelo volume da droga ou pelo luxo da operação criminosa, mas pela nacionalidade dos envolvidos e pelo país de origem da aeronave. Entre os detidos estava até mesmo um cidadão conhecido por participar e vencer uma competição de aviação promovida pelo famoso youtuber Mr Beast, mostrando que o tráfico internacional não escolhe perfil social, profissão ou fama.

 

O episódio escancara uma questão que frequentemente fica fora dos discursos oficiais: os Estados Unidos gostam de se apresentar como árbitro moral do planeta, apontando dedos para governos estrangeiros, classificando organizações criminosas de outros países como terroristas e oferecendo receitas para combater a criminalidade internacional. Entretanto, quando se observa a realidade dentro de suas próprias fronteiras, o cenário é bem menos confortável.

 

Os Estados Unidos possuem algumas das organizações criminosas mais poderosas e influentes do mundo, responsáveis por atividades que vão do tráfico de drogas à lavagem de dinheiro, do contrabando à violência organizada. Além disso, o país figura entre os maiores mercados consumidores de drogas do planeta, uma demanda gigantesca que alimenta cadeias criminosas em diversos continentes.

 


A lógica é simples: sem consumidores, não haveria fornecedores. Sem um mercado disposto a pagar bilhões de dólares por substâncias ilícitas, grande parte do tráfico internacional perderia sua razão de existir. Ainda assim, o discurso oficial costuma concentrar suas críticas em nações estrangeiras, como se o problema estivesse sempre do outro lado da fronteira.

 

O jato apreendido no Paraguai é mais uma demonstração de que o crime organizado não possui nacionalidade fixa e que nenhuma potência mundial está imune à participação de seus cidadãos em atividades ilícitas. A diferença é que alguns países são constantemente julgados e rotulados, enquanto outros parecem desfrutar do privilégio de apontar os erros alheios sem enfrentar com a mesma intensidade os próprios problemas.

 

O combate ao narcotráfico exige cooperação internacional, seriedade e autocrítica. Nenhum país pode se apresentar como salvador do mundo enquanto ignora as falhas estruturais que ajudam a alimentar o próprio sistema criminoso que afirma combater. Casos como o do jato apreendido no Paraguai servem como lembrete de que a luta contra o crime começa dentro de casa, antes de qualquer tentativa de dar lições ao restante do planeta.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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