Por *ElvécioAndrade
Há decisões judiciais que encerram um processo.
Outras, porém, reabrem feridas que jamais cicatrizaram. A liberação do autor do
massacre nas escolas de Aracruz, no litoral da Região Central do Espírito
Santo, que chocou não só os capixabas mas todo o país, é uma delas.
O adolescente que, aos 16 anos, mergulhou o
Estado em uma das maiores tragédias de sua história recente deixou a unidade
socioeducativa após cumprir o período máximo de internação previsto pelo ECA (Estatuto
da Criança e do Adolescente). Agora, aos 19 anos, passará a cumprir medida de
liberdade assistida pelo prazo mínimo de seis meses.
A saída ocorre porque a legislação brasileira
estabelece o limite de três anos de internação para atos infracionais cometidos
por menores de idade, independentemente da gravidade do crime. Mas a pergunta
que ecoa nas ruas é inevitável: como explicar às famílias das vítimas que quem
matou quatro pessoas e deixou tantas outras marcadas física e emocionalmente já
está novamente em liberdade?
Em novembro de 2022, vestido com uniforme do
Exército e armado, o então adolescente invadiu a Escola Estadual Primo Bitti,
entrou na sala dos professores e abriu fogo. Duas educadoras perderam a vida.
Em seguida, fugiu em um veículo com as placas encobertas e foi até o Centro
Educacional Praia de Coqueiral, onde voltou a atirar, matando mais duas pessoas e
deixando outros feridos. Ao todo foram 12 pessoas feridas. O ataque mobilizou forças policiais, helicópteros e
chocou o Brasil inteiro.
As vítimas jamais voltarão para casa. Seus
familiares receberam uma pena perpétua de dor, saudade e silêncio. Já o
responsável pelo atentado cumpriu a medida máxima prevista para quem era menor
de idade à época dos fatos, e agora retoma a liberdade como se nada tivesse
acontecido, gerando revolta.
É importante destacar que a desinternação
decorre da aplicação da legislação vigente, e não de uma decisão isolada de
flexibilização da pena. Ainda assim, o caso reacende um debate profundo sobre
se o ordenamento jurídico atual oferece respostas proporcionais para crimes de
extrema gravidade praticados por adolescentes.
Enquanto especialistas discutem
ressocialização, garantias legais e os limites do sistema socioeducativo, parte
da população revive um sentimento difícil de ignorar: o medo. Medo porque o
episódio permanece vivo na memória coletiva. Medo porque o trauma daquele
novembro de 2022 ainda acompanha estudantes, professores, familiares e toda a
sociedade capixaba. Medo porque, com o indivíduo solto, a população não está em
segurança.
A tragédia de Aracruz jamais será esquecida. E
a libertação do autor do ataque certamente voltará a alimentar discussões sobre
segurança pública, responsabilização de adolescentes envolvidos em crimes
hediondos e a necessidade de aperfeiçoar a legislação para enfrentar situações
tão extremas.
As vítimas receberam uma sentença eterna: a
ausência. O responsável, por força da lei, recebeu uma oportunidade de
recomeçar. Entre esses dois extremos permanece uma sociedade que ainda tenta
entender onde termina a proteção legal e onde começa o direito de viver sem
medo.
As leis existem para proteger direitos. Mas
também precisam ser capazes de transmitir à sociedade a sensação de que a
Justiça responde, de forma proporcional, à gravidade dos crimes que abalam um
país inteiro. Ter por perto um criminoso que demonstrou
ser de altíssima periculosidade, que age com extremo sangue frio, deixa
qualquer cidadão com medo e em estado de alerta.
*Elvécio Andrade é
radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos
Constitucional e Administrativo.
Siga-nos no Instagram: @colatinanews2019, no Facebook:
@sitecolatinanews, no TikTok: @colatinanews e se inscreva no nosso canal:
@colatinanews4085






Nenhum comentário:
Postar um comentário