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28/09/2026

Alexandre Pires: das paradas de sucesso para as paradas criminais na playlist da Polícia Federal

Alexandre Pires dos palcos para a lista da PF

Por *Elvécio Andrade

 

A turma que gosta de transformar qualquer investigação contra adversários políticos em prova definitiva de alguma coisa talvez precise atualizar a playlist. Afinal, quando a Polícia Federal bate à porta de alguém famoso, a regra deveria ser a mesma para todos: investiga-se, apura-se e, se houver crime comprovado, responsabiliza-se. Nem santo de direita, nem santo de esquerda, nem santo de palco deveria ter imunidade.

 

Alexandre Pires foi novamente alvo da Polícia Federal na segunda fase da Operação Disco de Ouro, deflagrada na quarta-feira, 23. A operação investiga uma organização criminosa acusada de lavagem de capitais, falsidade ideológica e outros crimes relacionados a operações transnacionais. Foram cumpridos 12 mandados de busca e apreensão e 17 ordens de sequestro de bens e valores.

 

E aqui começa a parte que parece roteiro de filme. A investigação apura um esquema relacionado à comercialização e exportação de cassiterita, minério utilizado para obtenção de estanho e que tem aplicações na indústria eletrônica. A PF aponta que o grupo investigado movimentou e ocultou mais de US$ 48 milhões, utilizando empresas brasileiras e estrangeiras, contas de terceiros e mecanismos financeiros destinados a dificultar o rastreamento dos recursos.

 

E Alexandre Pires? Segundo informações divulgadas sobre a investigação, uma empresa ligada ao cantor recebeu recursos que passaram a ser analisados pela PF. A imprensa relata que o valor sob suspeita chega a R$ 2,5 milhões. Isso, porém, não significa que os mais de US$ 48 milhões sejam atribuídos ao cantor individualmente.

 

O nome do artista, aliás, não aparece pela primeira vez nessa história. Ele já havia sido alvo da primeira fase da Operação Disco de Ouro, em 2023, quando a investigação mirava um suposto esquema de financiamento e logística de garimpo ilegal na terra indígena Yanomami. Agora, convenhamos: é muita coincidência para uma única playlist. Primeiro veio o cruzeiro, depois, a investigação e agora, a segunda fase. E o nome do cantor novamente aparece no encarte da operação.

 


Mas calma lá, apressadinhos: ser alvo de busca e apreensão não é ser condenado. A defesa de Alexandre Pires afirma que a relação profissional dele com o empresário Matheus Possebon se restringia à intermediação da venda de shows e nega qualquer outra relação jurídica ou comercial relacionada aos fatos investigados. É justamente aí que mora a diferença entre jornalismo e torcida organizada.

 

A Polícia Federal investiga, a Justiça autoriza medidas, a defesa contesta e quem tiver razão deverá ser definido pelas provas e pelo devido processo legal. Agora, para quem passou anos vendendo a ideia de que determinado espectro político tinha monopólio nacional da investigação policial, fica uma pequena lembrança: a PF não pergunta em quem o investigado vota antes de cumprir mandado. E talvez seja essa a parte mais engraçada da história.

 

Porque tem gente que passou tanto tempo procurando “bandido de estimação” no lado adversário que esqueceu uma regra básica da República: crime não tem ideologia, investigação não deveria ter partido e famoso não deveria ganhar salvo-conduto. No fim das contas, a Operação Disco de Ouro está mostrando que o Brasil tem histórias tão inacreditáveis que nem o melhor compositor de pagode conseguiria escrever.

 

Do pagode ao garimpo, do palco à cassiterita, o roteiro continua. E agora só falta descobrir se, nessa história toda, o “ouro” era mesmo ouro... ou se era apenas mais uma música desafinada tentando parecer sucesso. Uma coisa é mais que certa: é mais um bolsonarista do tipo Deus, Pátria e família que mostra o seu verdadeiro lado.

 

*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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