Por *Elvécio Andrade
Existe um fenômeno curioso no Espírito Santo: o
eleitor pode enxergar uma obra sendo construída diante dos próprios olhos,
atravessar uma estrada recuperada, utilizar uma escola reformada, circular por
uma cidade que recebeu investimentos e, ainda assim, chegar à urna dizendo que a
direita, que nunca fez nada no Estado durante as vezes em que o governou, é
quem trabalha”. É uma espécie de amnésia política seletiva.
O Espírito Santo vem sendo governado pelo PSB
de Renato Casagrande desde 2019, período marcado por uma agenda de
investimentos públicos e obras espalhadas pelo território capixaba. E, mesmo
assim, o Estado continua apresentando forte identificação eleitoral com a
direita em eleições nacionais. Mas há um episódio da história recente que
merecia estar mais presente na memória de quem gosta de repetir que “a esquerda
nunca fez nada pelo Espírito Santo”.
Em 2003, quando Paulo Hartung assumiu o
governo, encontrou um Estado em situação financeira dramática. Segundo
registros da época, o caixa estava praticamente zerado, havia cerca de R$ 1,2
bilhão em restos a pagar e servidores estavam com salários atrasados. A dívida
com o funcionalismo chegava a aproximadamente R$ 280 milhões. E quem havia
acabado de assumir a Presidência da República? Luiz Inácio Lula da Silva.
Paulo Hartung foi pessoalmente a Brasília pedir
ajuda. A solução negociada envolveu a antecipação de royalties do petróleo para
que o Espírito Santo pudesse enfrentar aquele buraco financeiro. A própria
Procuradoria-Geral do Estado registra que a antecipação foi negociada em 2003
entre Hartung e Lula para o pagamento de fornecedores e servidores estaduais.
Mais tarde, inclusive, o próprio Espírito Santo
entrou na Justiça questionando o equilíbrio financeiro desse contrato, e o STF
determinou a restituição de valores pagos a mais pelo Estado. Ou seja: a
história é mais complexa do que o simplismo político costuma admitir. Mas é
justamente aí que entra a pergunta incômoda: por que tanta gente consegue
lembrar perfeitamente de quem ajudou a construir uma narrativa ideológica, mas
esquece quem estava sentado na cadeira da Presidência quando o Estado precisava
desesperadamente de ajuda?
Não se trata de defender Lula, Casagrande,
Hartung ou qualquer outro político. Trata-se de memória. Governos não deveriam
ser julgados pela cor da camisa, pelo partido ou pelo discurso de palanque.
Deveriam ser confrontados com aquilo que efetivamente fizeram, quanto custaram,
quais resultados produziram e quem se beneficiou. O problema é que parte do
eleitorado parece ter transformado a política em futebol. Se é do meu time, a
obra é maravilhosa, mas se é do outro, é desperdício.
Se é do meu lado, é competência; se é do
adversário, é propaganda. E assim o cidadão passa a defender políticos como
torcedor defende clube: não importa o que façam, importa apenas quem está
usando a camisa. Talvez esteja na hora de o capixaba olhar menos para a
etiqueta ideológica e mais para a história, porque uma obra não fica mais
bonita porque foi inaugurada por um político de direita, e nem menos importante
porque foi realizada por um político de esquerda.
Dinheiro público não tem ideologia, estrada não
tem partido, hospital não vota e escola não é de esquerda nem de direita. Quem
deveria ter compromisso com tudo isso é o eleitor, que principalmente deveria
ter memória. Porque quando a memória desaparece, a política vira terreno fértil
para a ingratidão, para a manipulação e para o eterno recomeço da mesma
discussão. No fim das contas, talvez o problema não seja o capixaba ser de
direita ou de esquerda. O problema é quando ele deixa de ser crítico e passa a
ser apenas torcedor. Uma espécie de zumbi sem cérebro.
*Elvécio
Andrade é radialista,
jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e
Administrativo.
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