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27/09/2026

Capixaba que se declara de direita sequer sabe que sem Lula o Estado estaria atolado em dívidas

Lula salvou o Espírito Santo da falência

Por *Elvécio Andrade

 

Existe um fenômeno curioso no Espírito Santo: o eleitor pode enxergar uma obra sendo construída diante dos próprios olhos, atravessar uma estrada recuperada, utilizar uma escola reformada, circular por uma cidade que recebeu investimentos e, ainda assim, chegar à urna dizendo que a direita, que nunca fez nada no Estado durante as vezes em que o governou, é quem trabalha”. É uma espécie de amnésia política seletiva.

 

O Espírito Santo vem sendo governado pelo PSB de Renato Casagrande desde 2019, período marcado por uma agenda de investimentos públicos e obras espalhadas pelo território capixaba. E, mesmo assim, o Estado continua apresentando forte identificação eleitoral com a direita em eleições nacionais. Mas há um episódio da história recente que merecia estar mais presente na memória de quem gosta de repetir que “a esquerda nunca fez nada pelo Espírito Santo”.

 

Em 2003, quando Paulo Hartung assumiu o governo, encontrou um Estado em situação financeira dramática. Segundo registros da época, o caixa estava praticamente zerado, havia cerca de R$ 1,2 bilhão em restos a pagar e servidores estavam com salários atrasados. A dívida com o funcionalismo chegava a aproximadamente R$ 280 milhões. E quem havia acabado de assumir a Presidência da República? Luiz Inácio Lula da Silva.

 

Paulo Hartung foi pessoalmente a Brasília pedir ajuda. A solução negociada envolveu a antecipação de royalties do petróleo para que o Espírito Santo pudesse enfrentar aquele buraco financeiro. A própria Procuradoria-Geral do Estado registra que a antecipação foi negociada em 2003 entre Hartung e Lula para o pagamento de fornecedores e servidores estaduais.

 


Mais tarde, inclusive, o próprio Espírito Santo entrou na Justiça questionando o equilíbrio financeiro desse contrato, e o STF determinou a restituição de valores pagos a mais pelo Estado. Ou seja: a história é mais complexa do que o simplismo político costuma admitir. Mas é justamente aí que entra a pergunta incômoda: por que tanta gente consegue lembrar perfeitamente de quem ajudou a construir uma narrativa ideológica, mas esquece quem estava sentado na cadeira da Presidência quando o Estado precisava desesperadamente de ajuda?

 

Não se trata de defender Lula, Casagrande, Hartung ou qualquer outro político. Trata-se de memória. Governos não deveriam ser julgados pela cor da camisa, pelo partido ou pelo discurso de palanque. Deveriam ser confrontados com aquilo que efetivamente fizeram, quanto custaram, quais resultados produziram e quem se beneficiou. O problema é que parte do eleitorado parece ter transformado a política em futebol. Se é do meu time, a obra é maravilhosa, mas se é do outro, é desperdício.

 

Se é do meu lado, é competência; se é do adversário, é propaganda. E assim o cidadão passa a defender políticos como torcedor defende clube: não importa o que façam, importa apenas quem está usando a camisa. Talvez esteja na hora de o capixaba olhar menos para a etiqueta ideológica e mais para a história, porque uma obra não fica mais bonita porque foi inaugurada por um político de direita, e nem menos importante porque foi realizada por um político de esquerda.

 

Dinheiro público não tem ideologia, estrada não tem partido, hospital não vota e escola não é de esquerda nem de direita. Quem deveria ter compromisso com tudo isso é o eleitor, que principalmente deveria ter memória. Porque quando a memória desaparece, a política vira terreno fértil para a ingratidão, para a manipulação e para o eterno recomeço da mesma discussão. No fim das contas, talvez o problema não seja o capixaba ser de direita ou de esquerda. O problema é quando ele deixa de ser crítico e passa a ser apenas torcedor. Uma espécie de zumbi sem cérebro.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 


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