Por *Elvécio Andrade
Pelo jeito, a eleição para o Senado do Espírito
Santo também vai ter direito a espetáculo de redes sociais. E quem resolveu
tirar o celular do bolso e apertar o botão da sinceridade foi o prefeito de
Baixo Guandu, Lastênio Luiz Cardoso. Em vídeo publicado nas redes sociais, Lastênio
fez um apelo direto aos capixabas: não votem em Sérgio Meneguelli para senador.
E a justificativa é simples: o Espírito Santo já cometeu erros demais elegendo
parlamentares que, segundo ele, pouco ou nada produziram pelo Estado e pelos
municípios.
A crítica atinge justamente o principal produto
político de Meneguelli: a imagem construída na internet. Meneguelli ficou
conhecido nacionalmente por uma estética política cuidadosamente adaptada às
redes sociais: bicicleta, vassoura, “simplicidade”, roupas despojadas e aquela
fotografia perfeita do político “gente como a gente”. O problema, segundo seus
críticos, é que governar não se resume a produzir vídeos de dois minutos.
Porque pegar uma vassoura, varrer uma calçada
diante de uma câmera e depois voltar para o gabinete pode render milhões de
visualizações. Mas não varre os problemas de uma cidade. A pergunta incômoda é
outra: além das imagens para as redes sociais, o que efetivamente foi entregue?
Lastênio foi ainda mais duro ao questionar a atuação
de Meneguelli como deputado estadual. Segundo o prefeito, durante praticamente
quatro anos de mandato, o parlamentar não destinou sequer uma emenda para Baixo
Guandu, e tampouco levou recursos significativos para outros municípios. E aqui
está o ponto que merece ser discutido pelo eleitor: senador não é influenciador
digital.
O Senado Federal não é palco para produzir
reels de bicicleta, vídeos varrendo rua ou fotografias cuidadosamente
enquadradas para transmitir simplicidade. Senador precisa votar, fiscalizar,
articular recursos, defender interesses do Estado e, principalmente, apresentar
resultados. O eleitor capixaba terá direito a escolher dois nomes para o
Senado. E cada um desses deles pode permanecer por oito anos em Brasília.
O voto, portanto, não deveria ser dado pela quantidade de curtidas, pela performance diante da câmera ou pela capacidade de fingir ser humilde durante alguns minutos. E Lastênio toca justamente nessa ferida quando afirma que todo cidadão tem o mesmo peso na urna: o trabalhador rural, o gari, o empresário, o professor, o aposentado e até o presidente da República têm direito ao mesmo voto. Não existe voto de primeira classe. Por isso, o eleitor precisa desconfiar da política transformada em espetáculo.
Porque é muito fácil chegar perto de um gari,
pegar uma vassoura, varrer durante dois minutos, colocar uma música
emocionante, editar o vídeo e publicar: “olha como sou simples”. Difícil é
mostrar resultado, apresentar obra, apontar recursos destinados aos municípios,
explicar o que foi feito com o mandato, sair da tela do celular e entrar na
realidade das pessoas. E é justamente aí que a política de internet começa a
encontrar seu maior problema: a câmera pode esconder muita coisa, mas a
realidade não tem filtro.
Meneguelli também carrega em sua trajetória a
passagem pela Prefeitura de Colatina. Seus críticos lembram que sua administração
ficou marcada por controvérsias, incluindo questionamentos sobre obras e gastos
públicos. Entre os episódios mais lembrados está o gasto absurdo com lonas para
cobertura de áreas de encostas e o controverso monumento relacionado ao
velocípede, que acabou ganhando, nas ruas e nas rodas de conversa, o apelido
joicoso de Bicicletão do Meneguelli.
A política tem dessas ironias: enquanto o
político tenta transformar a bicicleta em símbolo de simplicidade, o eleitor
pode acabar perguntando quanto custou a bicicleta, e, principalmente, o que
ficou para a cidade além da fotografia. E há uma diferença enorme entre parecer
simples e administrar bem. Assim como existe uma diferença ainda maior entre
ser popular nas redes sociais e ser produtivo na política. No fim das contas, a
eleição para o Senado não deveria ser um concurso de simpatia, nem uma disputa
de quem produz o vídeo mais compartilhado. É uma escolha séria.
O capixaba precisa olhar para o currículo, para
os votos, para os resultados, para as emendas, para a atuação parlamentar e
para aquilo que cada candidato efetivamente entregou à população. Porque like
não tapa buraco de rua, vídeo não constrói escola, dancinha não traz recurso e
bicicleta não substitui trabalho parlamentar. A urna não tem algoritmo.
E, no dia da eleição, não haverá câmera, edição, música de fundo nem equipe de redes sociais. Haverá apenas o eleitor diante da máquina de votação. E aí, meu caro candidato de internet, a curtida vira voto, ou vira apenas lembrança de um vídeo bem produzido? Veja o vídeo abaixo:
*Elvécio
Andrade é radialista,
jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e
Administrativo.
Saiba mais sobre Meneguelli clicando nos links abaixo:
Até que enfim a novela da candidatura de Meneguelli ao Senado Federal chega ao final
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