Por *Elvécio Andrade
Existe uma velha tradição marítima
segundo a qual o capitão é o último a abandonar o navio. Na aviação, o
comandante responde pela segurança de seus passageiros e no Exército, espera-se
que um líder jamais abandone seus comandados à própria sorte. Mas, “no
maravilhoso” universo do bolsonarismo, até a coragem parece funcionar de cabeça
para baixo.
Ali, o discurso é de valentia,
patriotismo, honra e sacrifício. Entretanto, quando chega a hora de enfrentar
as consequências dos próprios atos, a retórica heroica dá lugar a uma
extraordinária preocupação com a própria pele. É o patriotismo de conveniência:
exige-se dos seguidores disposição para enfrentar instituições, desafiar
autoridades, acreditar em conspirações e comprar brigas que sequer compreendem.
Mas quem alimenta o espetáculo nem sempre demonstra a mesma disposição para
pagar a conta. E que conta!
Durante anos, uma multidão foi
estimulada a acreditar que estava participando de uma cruzada para salvar o
Brasil. Alguns foram tão longe nessa devoção que trocaram o bom senso pelo
fanatismo e acabaram envolvidos em episódios que os levaram às barras da
Justiça. Acreditaram no mito, nas promessas e acreditaram até que bravatas de
internet seriam suficientes para derrotar a Constituição. Só esqueceram de
perguntar quem ficaria ao lado deles quando a Justiça batesse à porta.
Porque uma coisa é gritar palavras de
ordem diante de uma multidão e outra, bem diferente, é sustentar a valentia
diante de um processo judicial. No bolsonarismo, a coragem parece ser um
produto destinado exclusivamente ao consumo dos seguidores. Os líderes vendem,
os devotos compram e, quando a mercadoria apresenta defeito, não existe
garantia nem assistência técnica.
A ironia é monumental: aqueles que
passaram anos chamando adversários de covardes descobriram que coragem não se
mede pelo volume dos gritos, pela quantidade de bandeiras ou pela agressividade
das publicações nas redes sociais. Mede-se, sobretudo, pela disposição de
assumir responsabilidades. E há uma diferença gigantesca entre um comandante de
verdade e um líder que transforma seus seguidores em escudos políticos. O
primeiro enfrenta a tempestade ao lado da tripulação, já o segundo faz
discursos inflamados enquanto procura o bote salva-vidas.
No fim, sobra para os fiéis a dura
descoberta de que devoção política não garante imunidade judicial. O capitão de
verdade é o último a sair do navio. Já no bolsonarismo, a pergunta que não quer
calar é outra: Quando o navio começa a afundar, quem fica para salvar os
patriotas que acreditaram no comandante? Porque, pelo visto, no manual de
sobrevivência do fanatismo político, o lema é bem simples: Salve-se quem puder.
E que os seguidores aprendam a nadar, enquanto o líder corrupto foge para os
Estados Unidos com o rabo entre as pernas para não ser preso por seus inúmeros
crimes.
*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado
especialista em direitos Constitucional e Administrativo.
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