Por *Elvécio Andrade
Aquela história de que o mundo dá voltas parece
ter encontrado um endereço bem conhecido em Barra de São Francisco, no Noroeste
do Espírito Santo. A lista de boicote contra comerciantes, empresários e
profissionais supostamente eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
(PT), que começou circulando pelo WhatsApp, agora virou assunto de investigação
oficial. E um dos nomes que aparecem no centro da polêmica é justamente o de
quem, pela natureza do cargo que ocupa, deveria conhecer muito bem os princípios
constitucionais que asseguram a liberdade de consciência, de convicção política
e o respeito à democracia.
Trata-se do procurador municipal Raony Scheffer
Pereira, cuja suposta participação na elaboração e divulgação das listas será
objeto de apuração administrativa. A Prefeitura francisquense instaurou uma
sindicância, por meio de portaria publicada na quinta-feira, 29, nomeando
servidores para compor uma comissão encarregada de investigar o possível
envolvimento de agentes públicos na elaboração e divulgação de material
político-eleitoral destinado a incentivar o boicote econômico contra cidadãos
da cidade.
A comissão terá 15 dias a partir do dia 03 de
novembro, para apresentar relatório e propor as providências legais cabíveis,
caso sejam confirmadas irregularidades. Em outras palavras, a brincadeira de
fiscalizar o voto alheio ganhou contornos bem menos divertidos para os
envolvidos. Segundo as informações que acompanham a instauração da sindicância,
prints de conversas do grupo de WhatsApp denominado Tropa do Flávio 22 BSF
foram anexados ao procedimento.
Em uma das mensagens atribuídas ao procurador,
aparece a fotografia de um estabelecimento comercial acompanhada da seguinte
manifestação: "Fiquei sabendo agora que esse açougue o dono também é PT doente.
Atualizem a lista." Em outra troca de mensagens, o nome de Raony aparece
associado à orientação para que pastores também fossem incluídos na relação. Sim,
pastores! Aparentemente, nem as lideranças religiosas escapariam dessa espécie
de tribunal ideológico improvisado.
O cidadão poderia até pregar o amor ao próximo,
desde que o próximo tivesse votado no candidato considerado correto pela turma.
Raony nega as acusações. Caberá à comissão verificar a autenticidade, a autoria
e o contexto das mensagens, além de apurar eventuais responsabilidades
administrativas. Mas uma coisa é inegável: o episódio ultrapassou os limites de
uma discussão política de WhatsApp e passou a exigir esclarecimentos
institucionais.
O prefeito Enivaldo dos Anjos informou que
determinou a abertura da sindicância assim que tomou conhecimento da existência
da lista e do suposto envolvimento de servidores municipais. E revelou um
detalhe particularmente perturbador. Segundo o prefeito, há registros nas
mensagens até mesmo de uma proposta de colocar estrelas nas portas dos
estabelecimentos comerciais para identificá-los. Estrelas nas portas de
comerciantes! Não é difícil compreender por que Enivaldo associou a prática aos
métodos de perseguição utilizados durante o fascismo italiano e o nazismo
alemão.
Evidentemente, contextos históricos distintos
não devem ser confundidos. Mas a simbologia de marcar estabelecimentos para
identificá-los como alvos de hostilidade política é suficientemente grave para
provocar repúdio imediato. Afinal, quando alguém começa a defender que cidadãos
sejam identificados, segregados ou economicamente prejudicados por suas
convicções, já não estamos diante de uma simples divergência eleitoral. Estamos
diante de uma mentalidade autoritária que merece ser enfrentada com os
instrumentos da democracia e do Estado de Direito.
O prefeito foi categórico: "Condenamos
totalmente esse tipo de comportamento (listas de boicote). Nesses prints, tem
registro até de que vão colocar estrelas nas portas dos comerciantes para
identificá-los. A prefeitura não vai permitir essas situações." Enivaldo
também ressaltou que as pessoas devem ter liberdade para fazer suas próprias
escolhas políticas. Uma afirmação que deveria ser tão óbvia quanto dizer que a
água é molhada. Infelizmente, em determinados ambientes de radicalização
política, até o óbvio precisa ser explicado.
O episódio ganha uma dimensão adicional porque
Raony Scheffer Pereira, além de procurador municipal, é conselheiro da Seccional
capixaba da Ordem dos Advogados do Brasil. A OAB/ES foi procurada para
manifestação, mas, conforme as informações disponíveis, não apresentou
posicionamento até então. Já a 5ª Subseção da OAB, em Barra de São Francisco,
divulgou carta pública repudiando expressamente a criação, divulgação e o
incentivo a listas de boicote contra comerciantes, empresários e prestadores de
serviços por motivações político-eleitorais.
Uma manifestação importante, sobretudo porque a
advocacia possui compromisso institucional com a defesa da Constituição, das
liberdades individuais e do Estado Democrático de Direito. Não faria sentido
defender as garantias constitucionais nos tribunais e relativizá-las quando o
cidadão atingido pensa politicamente diferente. Também segundo as informações
divulgadas, o procurador teria republicado em suas redes sociais conteúdos de
teor semelhante aos que motivaram a controvérsia, posteriormente apagados após
a repercussão do caso.
Essas circunstâncias também merecem
esclarecimento, sem antecipação de culpa ou prejuízo ao direito de defesa. Há
uma ironia irresistível em toda essa história. A iniciativa que pretendia
constranger pequenos comerciantes, profissionais da cidade e religiosos acabou
provocando uma reação institucional que seus idealizadores provavelmente não
esperavam. Quem queria atualizar a lista de comerciantes agora terá de
acompanhar a atualização dos procedimentos administrativos. Quem pretendia
fiscalizar a preferência política dos outros terá a própria conduta funcional
examinada.
E quem imaginava que uma campanha de
hostilidade econômica seria apenas mais uma diversão de grupo de WhatsApp
descobriu que determinadas atitudes podem produzir consequências muito além da
tela do celular. Isso não significa condenar antecipadamente ninguém. A
sindicância existe justamente para apurar os fatos, individualizar condutas e
assegurar o contraditório e a ampla defesa. Mas significa, sim, que o poder
público não deve tratar com indiferença denúncias de participação de seus
agentes em iniciativas destinadas a constranger cidadãos por suas escolhas
políticas.
O Município precisa de desenvolvimento,
investimentos, geração de empregos e fortalecimento de seu comércio. Não
precisa de patrulheiros ideológicos querendo transformar padarias, açougues,
supermercados, salões de beleza e até instituições religiosas em campos de
batalha eleitoral. O comerciante não precisa declarar em quem votou para vender
seus produtos, o pastor não precisa apresentar certidão de alinhamento político
para exercer sua atividade religiosa e o cidadão não precisa pedir licença a
grupo algum para exercer um direito assegurado pela Constituição Federal.
Que a sindicância seja conduzida com rigor,
transparência, imparcialidade e absoluto respeito às garantias legais dos
investigados. Se houver irregularidades comprovadas, que sejam adotadas as
medidas cabíveis. Se não houver, que isso também seja devidamente esclarecido. Porque
é precisamente essa a diferença entre uma democracia e um tribunal de WhatsApp:
na democracia, ninguém deve ser condenado por uma lista, mas ninguém está acima
da lei.
E aos entusiastas da fiscalização ideológica
fica uma última reflexão: Talvez tivesse sido mais produtivo gastar o tempo
procurando maneiras de ajudar o comércio de Barra de São Francisco, em vez de
tentar prejudicá-lo. Agora, além da lista de boicote, existe uma sindicância. Parece
que a turma que queria atualizar a lista acabou provocando uma atualização
muito mais interessante: a da própria responsabilidade.
*Elvécio
Andrade é radialista,
jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e
Administrativo.
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