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02/11/2026

Quando o diploma não ensina cidadania: o ódio que sobrevive às faculdades de direito e medicina

Júlia Gobbo e Raony scheffer criam polêmica


Por *Elvécio Andrade

 

As últimas eleições deixaram uma herança que vai muito além dos resultados das urnas. Revelaram uma realidade preocupante: a existência de profissionais altamente escolarizados que, aparentemente, não conseguiram desenvolver uma das habilidades mais importantes para a convivência em sociedade: respeitar quem pensa diferente. Médicos e advogados, profissionais que deveriam ter como referências a ética, a responsabilidade e o respeito à dignidade humana, aparecem em episódios nos quais a intolerância política parece ter assumido o comando de suas atitudes.

 

E aqui cabe uma pergunta incômoda: de que adianta ostentar um diploma, pendurar títulos na parede e acrescentar especializações ao currículo se, diante de uma divergência política, o indivíduo abandona o bom senso, despreza princípios fundamentais e passa a tratar seus semelhantes como inimigos? No caso de alguns médicos, a situação é particularmente preocupante quando se cogita utilizar a própria profissão para intimidar ou prejudicar pacientes em razão de suas convicções políticas.

 

A medicina não é instrumento de vingança ideológica, muito menos propriedade particular de quem acredita que o voto de alguém pode determinar a qualidade do atendimento que essa pessoa merece. Mas é entre alguns profissionais do Direito que encontramos contradições igualmente difíceis de compreender. Advogados estudam durante anos a Constituição Federal, os direitos fundamentais, as garantias individuais, o contraditório, a ampla defesa e o princípio da igualdade.

 

Aprendem que ninguém pode ser discriminado por suas convicções políticas e que o Estado de Direito não funciona conforme a preferência ideológica de quem ocupa determinada posição. Entretanto, parece que alguns deixaram esses ensinamentos esquecidos em alguma gaveta da faculdade, provavelmente junto com os livros que nunca mais abriram. É importante esclarecer: todo cidadão tem direito à defesa, inclusive candidatos investigados, pessoas acusadas de corrupção ou até integrantes de organizações criminosas.

 

A advocacia existe justamente para assegurar que ninguém seja privado de seus direitos. O problema não está em defender juridicamente alguém, mas em transformar a profissão em instrumento de perseguição, intimidação e discriminação contra adversários políticos. E os exemplos recentes no Espírito Santo merecem atenção. Um dos episódios envolve a advogada Júlia Gobbo Amorim, desligada do quadro de colaboradores da OAB-ES após a divulgação de um vídeo no qual declarou que havia muitos petistas trabalhando na instituição e que, dependendo dela, iria dificultar a vida dessas pessoas.

 

A manifestação foi tão incompatível com os princípios institucionais que a própria OAB/ES precisou divulgar uma nota pública. A entidade reafirmou seu caráter apartidário e seu compromisso com a democracia, a pluralidade de ideias e a dignidade humana, deixando claro que respeita a liberdade de expressão, mas não tolera manifestações discriminatórias nem ataques motivados por convicções políticas.

 

Ora, imagine um advogado que, em vez de defender direitos, anuncia que pretende dificultar a vida de pessoas por causa de suas escolhas eleitorais. Que confiança pode inspirar alguém que demonstra tamanha dificuldade em separar suas preferências pessoais de suas responsabilidades profissionais? E Barra de São Francisco, no Noroeste do Espírito Santo, também entrou nesse preocupante roteiro.

 

O procurador municipal Raony Scheffer Pereira, que também ocupa função no Conselho Seccional da OAB-ES, teve seu nome associado a conversas sobre a formação e atualização de uma lista de boicote a comerciantes, prestadores de serviços e lideranças religiosas identificados como eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva. A situação ganhou tamanha repercussão que a Prefeitura Municipal abriu uma sindicância para apurar os fatos. Mensagens atribuídas ao procurador aparecem em registros anexados à portaria de instauração do procedimento.

 

É importante registrar que Raony nega as suspeitas relacionadas à sua participação na iniciativa mesmo diante da existência de prints. Portanto, cabe à investigação esclarecer os acontecimentos e determinar eventuais responsabilidades, assegurando-lhe o direito de defesa. Mas existe uma questão que não pode ser ignorada: se confirmada a participação de um agente público na promoção de perseguições econômicas motivadas por preferência eleitoral, estaremos diante de uma situação que exige muito mais do que explicações protocolares.

 


Afinal, um procurador municipal deveria conhecer profundamente os princípios que regem a administração pública, especialmente a legalidade, a impessoalidade e a moralidade. Não é exatamente para isso que existe a formação jurídica? E há algo ainda mais absurdo nessa história: comerciantes, trabalhadores e até lideranças religiosas tiveram seus nomes expostos e seus negócios ameaçados simplesmente porque exerceram um direito constitucional: escolher em quem votar.

 

Desde quando o voto passou a funcionar como certificado de autorização para comprar, vender, contratar serviços ou frequentar determinados estabelecimentos? Será que estamos caminhando para uma sociedade na qual será necessário apresentar o título eleitoral antes de comprar um pão, contratar um eletricista ou escolher um médico? Quem sabe, em breve, alguns estabelecimentos resolvam instalar uma urna na entrada, não para votar, mas para conferir se o cliente merece ser atendido!

 

O sarcasmo seria engraçado se a realidade não fosse tão preocupante. A liberdade de expressão não é licença para perseguir. A liberdade de associação não autoriza organizar campanhas de intimidação. E a liberdade política não pode ser utilizada como justificativa para tentar retirar de outras pessoas os mesmos direitos que se reivindicam para si. O mais curioso é que muitos desses profissionais certamente conhecem de cor os artigos da Constituição que protegem suas próprias liberdades.

 

O problema começa quando precisam reconhecer que essas mesmas garantias também pertencem aos seus adversários. E chegamos, finalmente, à pergunta que dá sentido a toda esta reflexão: de quem é o fracasso? Das faculdades, que não estão conseguindo formar cidadãos conscientes de suas responsabilidades sociais, ou dos próprios profissionais, que, apesar de anos de estudo, não conseguem assimilar os ensinamentos mais elementares sobre ética, respeito e convivência democrática?

 

Talvez a resposta esteja nas duas partes. Afinal, uma faculdade pode entregar um diploma, ensinar códigos, jurisprudências e teorias, mas não consegue, sozinha, fabricar caráter, honestidade intelectual ou respeito ao próximo. Um diploma comprova que alguém concluiu determinado curso. Não é atestado de civilidade, certificado de honestidade ou autorização para se considerar superior aos demais.

 

A sociedade não precisa de médicos que escolham pacientes pela preferência eleitoral, nem de advogados que confundam a defesa da Justiça com a perseguição ideológica. Precisa de profissionais que compreendam que seus deveres não desaparecem quando o resultado das urnas desagrada.

 

Porque, no fim das contas, a maior tragédia não é encontrar alguém sem formação acadêmica defendendo ideias intolerantes. É descobrir que alguém passou anos estudando justamente os princípios que deveria respeitar e, mesmo assim, parece ter saído da faculdade sem aprender a mais importante das lições: a liberdade que protege você também protege quem pensa diferente.

 

E, se nem isso foi possível aprender depois de tantos anos de estudo, talvez esteja na hora de algumas pessoas voltarem à primeira aula. Não necessariamente para estudar Direito ou Medicina, mas para aprender cidadania. Pois o diploma pode abrir portas, mas não consegue, sozinho, abrir a mente de quem escolheu viver aprisionado pelo ódio.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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