Instituto ou ilusionismo? Quando a pesquisa vira peça de propaganda eleitoral disfarçada - Colatina News

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30/04/2026

Instituto ou ilusionismo? Quando a pesquisa vira peça de propaganda eleitoral disfarçada

Pesquisa poderia estar beneficiando Pazolini

Por *Elvécio Andrade

 

O ano eleitoral mal engrenou e já tem cheiro de problema no ar, e não é pouco. O que era para ser instrumento de medição virou, em alguns casos, ferramenta de indução. E não estamos falando de teoria da conspiração de grupo de WhatsApp, mas de decisões da própria Justiça Eleitoral acendendo o alerta vermelho.

 

Em nível nacional, cresce o coro de desconfiança sobre institutos que orbitam campanhas, especialmente ligados ao clã do senador Flávio Bolsonaro, divulgando números que, para qualquer cidadão minimamente atento, soam mais como torcida organizada do que levantamento estatístico sério. E quando a realidade começa a incomodar, a matemática vira mágica.

 

Mas não é somente a nível nacional. Também no Espírito Santo, a situação deixou de ser suspeita e virou caso de Justiça. A Justiça Eleitoral determinou a suspensão imediata de uma pesquisa do Instituto Veritá (é cada instituto que aparece). O motivo? Um combo de falhas técnicas que, na prática, transforma o levantamento em algo perigosamente próximo de manipulação.

 

A ação partiu do partido Agir, antigo PTC (Partido Trabalhista Cristão), que não engoliu os números apresentados e foi direto ao ponto: a pesquisa poderia distorcer o cenário político e, convenientemente, favorecer figuras específicas, pois a pesquisa, convenhamos, parecia menos um estudo e mais um ensaio geral de resultado.

 

E quem aparecia sorrindo no palco? Ele mesmo. O ex-prefeito bolsonarista (sempre eles) de Vitória/ES, Lorenzo Pazolini (Republicanos). Claro. Porque, nessas histórias, coincidência costuma ser só um nome elegante para roteiro mal disfarçado.

 

O levantamento utilizou entrevistas telefônicas automatizadas. Até aí, nada de ilegal. O problema começa quando o básico é ignorado. Segundo o magistrado, a forma como os candidatos foram apresentados pode ter confundido os eleitores. E não é detalhe pequeno: a associação entre número e partido é o “CPF” do candidato na cabeça do eleitor. Se isso falha, o resultado não mede opinião, fabrica erro.

 

E mais: inconsistências na numeração, erros de digitação e ausência de critério neutro na organização dos candidatos criaram um ambiente perfeito para respostas equivocadas. Não é estatística, é roleta. Como toda boa obra de ficção, e como se já não bastasse a bagunça metodológica, a pesquisa resolveu inovar no elenco, incluindo nomes que, legalmente, nem poderiam estar ali.

 


Foram citados prefeitos como Arnaldo Borgo Filho, de Vila Velha, e Euclério Sampaio, de Cariacica, que não haviam se desincompatibilizado dentro do prazo legal para concorrer. Ou seja: colocaram no cardápio eleitoral pratos que nem existem. Resultado? O eleitor responde sobre um cenário fictício, e o dado vira ficção com aparência de verdade.

 

Diante do conjunto da obra, o magistrado foi direto: há deficiências e impropriedades técnicas suficientes para comprometer a representatividade da pesquisa. Traduzindo do juridiquês: não dá para confiar. E isso, em ano eleitoral, não é detalhe, é grave. Porque pesquisa distorcida não apenas informa mal, mas influencia voto, direciona narrativa e pode alterar o jogo democrático.

 

Quantas outras “pesquisas” estão por aí, travestidas de ciência, mas operando como instrumento político? Porque quando o número deixa de refletir a realidade e passa a tentar criá-la, não estamos mais falando de erro técnico. Estamos falando de método. E, nesse jogo, quem perde não é candidato, é o eleitor.

 

Pesquisa eleitoral deveria ser termômetro. Mas, nas mãos erradas, vira controle remoto. E aí o jogo fica perigoso: cria-se uma realidade artificial, influencia-se o eleitor indeciso e se planta uma narrativa que, de tanto repetir, tenta virar verdade. A Justiça, pelo menos neste caso, fez o que se espera: cortou o mal pela raiz.

 

Não é só sobre uma pesquisa suspensa. É sobre um modelo de atuação onde o dado deixa de informar e passa a manipular. E quando isso acontece, não estamos mais discutindo metodologia. Estamos discutindo honestidade intelectual, artigo cada vez mais raro no mercado político.

 

Mas fica o alerta, porque, enquanto houver quem trate número como ferramenta de poder e não como retrato da realidade, a eleição corre o risco de começar viciada antes mesmo do primeiro voto.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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