Por *Elvécio Andrade
O ano eleitoral mal engrenou e já tem
cheiro de problema no ar, e não é pouco. O que era para ser instrumento de
medição virou, em alguns casos, ferramenta de indução. E não estamos falando de
teoria da conspiração de grupo de WhatsApp, mas de decisões da própria Justiça
Eleitoral acendendo o alerta vermelho.
Em nível nacional, cresce o coro de
desconfiança sobre institutos que orbitam campanhas, especialmente ligados ao
clã do senador Flávio Bolsonaro, divulgando números que, para qualquer cidadão
minimamente atento, soam mais como torcida organizada do que levantamento
estatístico sério. E quando a realidade começa a incomodar, a matemática vira
mágica.
Mas não é somente a nível nacional.
Também no Espírito Santo, a situação deixou de ser suspeita e virou caso de
Justiça. A Justiça Eleitoral determinou a suspensão imediata de uma pesquisa do
Instituto Veritá (é cada instituto que aparece). O motivo? Um combo de falhas
técnicas que, na prática, transforma o levantamento em algo perigosamente
próximo de manipulação.
A ação partiu do partido Agir, antigo
PTC (Partido Trabalhista Cristão), que não engoliu os números apresentados e
foi direto ao ponto: a pesquisa poderia distorcer o cenário político e,
convenientemente, favorecer figuras específicas, pois a pesquisa, convenhamos,
parecia menos um estudo e mais um ensaio geral de resultado.
E quem aparecia sorrindo no palco? Ele
mesmo. O ex-prefeito bolsonarista (sempre eles) de Vitória/ES, Lorenzo Pazolini (Republicanos). Claro. Porque, nessas histórias, coincidência costuma ser só um nome elegante
para roteiro mal disfarçado.
O levantamento utilizou entrevistas
telefônicas automatizadas. Até aí, nada de ilegal. O problema começa quando o
básico é ignorado. Segundo o magistrado, a forma como os candidatos foram
apresentados pode ter confundido os eleitores. E não é detalhe pequeno: a
associação entre número e partido é o “CPF” do candidato na cabeça do eleitor. Se
isso falha, o resultado não mede opinião, fabrica erro.
E mais: inconsistências na numeração,
erros de digitação e ausência de critério neutro na organização dos candidatos
criaram um ambiente perfeito para respostas equivocadas. Não é estatística, é
roleta. Como toda boa obra de ficção, e como se já não bastasse a bagunça
metodológica, a pesquisa resolveu inovar no elenco, incluindo nomes que,
legalmente, nem poderiam estar ali.
Foram citados prefeitos como Arnaldo
Borgo Filho, de Vila Velha, e Euclério Sampaio, de Cariacica, que não haviam se
desincompatibilizado dentro do prazo legal para concorrer. Ou seja: colocaram
no cardápio eleitoral pratos que nem existem. Resultado? O eleitor responde
sobre um cenário fictício, e o dado vira ficção com aparência de verdade.
Diante do conjunto da obra, o
magistrado foi direto: há deficiências e impropriedades técnicas suficientes
para comprometer a representatividade da pesquisa. Traduzindo do juridiquês:
não dá para confiar. E isso, em ano eleitoral, não é detalhe, é grave. Porque
pesquisa distorcida não apenas informa mal, mas influencia voto, direciona
narrativa e pode alterar o jogo democrático.
Quantas outras “pesquisas” estão por
aí, travestidas de ciência, mas operando como instrumento político? Porque
quando o número deixa de refletir a realidade e passa a tentar criá-la, não
estamos mais falando de erro técnico. Estamos falando de método. E, nesse jogo,
quem perde não é candidato, é o eleitor.
Pesquisa eleitoral deveria ser
termômetro. Mas, nas mãos erradas, vira controle remoto. E aí o jogo fica
perigoso: cria-se uma realidade artificial, influencia-se o eleitor indeciso e
se planta uma narrativa que, de tanto repetir, tenta virar verdade. A Justiça,
pelo menos neste caso, fez o que se espera: cortou o mal pela raiz.
Não é só sobre uma pesquisa suspensa.
É sobre um modelo de atuação onde o dado deixa de informar e passa a manipular.
E quando isso acontece, não estamos mais discutindo metodologia. Estamos
discutindo honestidade intelectual, artigo cada vez mais raro no mercado
político.
Mas fica o alerta, porque, enquanto
houver quem trate número como ferramenta de poder e não como retrato da
realidade, a eleição corre o risco de começar viciada antes mesmo do primeiro
voto.
*Elvécio Andrade é radialista,
jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e
Administrativo.
Siga-nos no Instagram: @colatinanews2019, no Facebook:
@sitecolatinanews, no TikTok: @colatinanews e se inscreva no nosso canal:
@colatinanews4085!




Nenhum comentário:
Postar um comentário