Por *Elvécio Andrade
Se alguém ainda tinha dúvida de como o descaso das
autoridades funciona na prática, basta dar um pulo, ou melhor, evitar a saída
de Barra de São Francisco, no Noroeste do Espírito Santo, mais precisamente no
já consagrado palco de confusões conhecido como Bar da Lúcia, no Bairro Irmãos Fernandes. Ali, o “sextou” não é
promoção de bebida. É promoção de violência. Violência gratuita.
Na madrugada de sábado, 11, o roteiro seguiu à
risca. Um jovem, mais um, foi cercado por vários indivíduos e espancado sem
qualquer cerimônia. Pauladas, pedradas, pancadaria generalizada, até que ele,
já sem reação, fosse largado no asfalto, ensanguentado, como se fosse lixo
descartável de uma noite qualquer.
Motivação? Detalhe irrelevante. Naquele ambiente, a
violência não precisa de motivo, ela já é parte do cardápio. Mas o mais
impressionante não é o crime. É a previsibilidade. O Bar da Lúcia parece operar sob uma espécie de imunidade informal.
Um lugar onde tudo acontece, brigas, consumo desenfreado de álcool, suspeitas
de drogas e prostituição, e nada acontece ao mesmo tempo, no que diz respeito a
providências efetivas.
É quase didático. Quer entender como ignorar sinais
de colapso social? Deixe um estabelecimento acumular confusões frequentes. Ignore
as reclamações dos moradores. Finja que assassinato é um episódio isolado. Trate
espancamentos como “brigas de bar”. E, acima de tudo, não faça absolutamente
nada.
Pronto. O ciclo está garantido. Porque não estamos
falando de um caso isolado. O histórico do local é um prontuário aberto: Teve
morte no ano passado. Já teve agressão brutal com braço quebrado, ocasião em
que o homossexual Salvador foi preso e se matou enforcado com a camisa na
prisão. E, ainda assim, portas abertas. Copos cheios. Problemas transbordando, e segundo moradores, ausência constante de policiamento.
Enquanto isso, os moradores seguem reféns da
própria vizinhança. Gente que trabalha, que tenta dormir, que tenta viver, mas
que é obrigada a conviver com gritaria, medo e a certeza de que, em qualquer
noite, a próxima vítima pode surgir. E surge. A pergunta, portanto, já não é
sobre o que acontece dentro do bar. Isso todo mundo sabe.
A pergunta é: quem está permitindo que continue
acontecendo? Porque quando as autoridades se omitem, elas deixam de ser apenas
espectadoras. Viram, na prática, cúmplices silenciosas. E o silêncio, nesse caso,
tem sido ensurdecedor. Até quando? Ou melhor: até a próxima briga e o próximo
corpo no asfalto.
O apelido do jovem que foi espancado é Cadu, segundo informações, mas seu nome
verdadeiro não foi divulgado. Também há informações de que um grupo de jovens amigos
da vítima desceu o morro e na noite do mesmo sábado foi até o bar onde tudo
aconteceu para vingar o amigo. E o pau comeu e o bambu gemeu. Não há informações se houve atuação da
polícia no sentido de prender os baderneiros. Veja o vídeo no final da notícvia.
*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.
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