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11/05/2026

Quando a cidade perde um homem do povo, não pode enterrá-lo também na memória

Em pé: Enivaldo dos Anjos, Carlinho Bambu, Serraria, Toinzinho Peladeira, Edimar dos Anjos, Edinho Pereira e DiduAgachados: Derly Cozer, Ném Simões, Edézio, Carlinhos Simões, Cleverlande e Jadson Gonçalves

Por *Elvécio Andrade

 

Em tempos em que tantos nomes são colocados em prédios públicos por conveniência política, acordos de gabinete ou simples vaidade de poder, Barra de São Francisco, no Noroeste do Espírito Santo, tem diante de si uma oportunidade rara: fazer justiça à própria história popular.

 

A recente morte de João Batista Justes, o inesquecível Serraria, deixou um vazio impossível de medir apenas com palavras. Porque Serraria não era apenas um cidadão comum. Era daqueles personagens humanos que ajudam a construir a alma de uma cidade. Um homem simples, querido, folclórico, autêntico, daqueles que carregavam no sorriso, na conversa e no jeito de viver a identidade francisquense.

 

Irmão do lendário cantor José Geraldo, Serraria escreveu sua própria história em Barra de São Francisco sem precisar de fama nacional para conquistar respeito. Ele fez isso vivendo entre o povo. Na juventude, esteve nos gramados da cidade, jogando futebol ao lado de figuras históricas do esporte local. Frequentou clubes, participou da vida esportiva e ajudou a construir uma época em que o futebol ainda era movido por amizade, raça e paixão verdadeira pela camisa.

 

Mas foi atrás da churrasqueira que Serraria se tornou praticamente uma instituição municipal. Durante anos, sua famosa churrascaria instalada dentro do estádio municipal virou ponto obrigatório para moradores e visitantes. O cheiro da carne assando parecia atravessar fronteiras. Gente de cidades vizinhas do Espírito Santo e até de Mantena/MG chegava a Barra de São Francisco para comer o churrasco do Serraria. Não era apenas comida. Era encontro, amizade, resenha, memória afetiva.

 


O Estádio Municipal, durante vários anos, teve a alma daquele homem circulando entre as arquibancadas, os jogadores, os torcedores, clientes e a fumaça da churrasqueira. Só saiu de lá porque o ex-prefeito Luciano Pereira, não permitiu sua presença. Por isso, talvez tenha chegado a hora de Barra de São Francisco compreender algo essencial: homenagens públicas precisam representar o sentimento do povo, e não apenas decisões políticas do passado.

 

Renomear o atual Estádio Municipal Prefeito Joaquim Alves de Souza para Estádio Municipal João Batista Justes, Serraria seria mais do que uma troca de placas. Seria um gesto de reconhecimento popular. Um ato de humanidade. Uma homenagem legítima a alguém que realmente viveu o estádio, respirou o futebol local e marcou gerações.

 

Porque, convenhamos: poucos prefeitos conseguem deixar uma lembrança tão viva quanto um homem que alimentou amizades, acolheu visitantes e se transformou em símbolo afetivo da cidade. Serraria não governou Município, não ocupou gabinete, não fez discursos em palanque. Fez algo muito mais raro: conquistou carinho verdadeiro.

 

E talvez seja exatamente esse tipo de nome que mereça permanecer eternamente gravado na entrada de um estádio municipal. Há homens que passam pelo poder. E há homens que permanecem para sempre no coração do povo. Serraria pertence à segunda categoria.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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