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10/05/2026

Barra de São Francisco: A cidade onde o sinal vermelho virou sugestão e o barulho virou lei

Ninguém mais respeita o sinal vermelho na cidade

Por *Elvécio Andrade

 

Barra de São Francisco, no Noroeste do Espírito Santo, parece ter desistido de vez do trânsito civilizado. Na cidade, atravessar sinal vermelho virou esporte municipal, trafegar na contramão virou rotina e transformar as ruas em pistas de corrida virou demonstração pública de impunidade. E o pior: tudo acontece à luz do dia, diante dos olhos das autoridades, que parecem assistir a esse caos urbano como quem vê uma novela repetida e já perdeu o interesse.

 

Motoqueiros, não todos, mas uma parcela considerável, tomaram conta das ruas como se a cidade fosse terra sem lei. Entregadores de lanches cortam sinais vermelhos em alta velocidade, avançam cruzamentos, costuram entre carros e trafegam na contramão sem o menor receio. O motivo é simples: sabem que dificilmente serão incomodados. Em Barra de São Francisco, o infrator parece ter mais liberdade do que o cidadão que tenta respeitar as regras.

 

E como se não bastasse o risco constante de atropelamentos e acidentes fatais, ainda existe o terrorismo sonoro promovido pelos canos de descarga adulterados. O barulho é infernal. Crianças não dormem, idosos passam mal, trabalhadores perdem a paz e estudantes não conseguem se concentrar. A cidade virou refém de uma minoria barulhenta que age como se o espaço público fosse extensão do próprio quintal. E o mais revoltante é que todos sabem quem são, todos ouvem, todos veem… menos quem deveria fiscalizar.

 

Mas o problema não para nas motos. Motoristas de carros, ônibus e até carretas avançam sinais vermelhos descaradamente, confiando na absoluta ausência de fiscalização. Os semáforos próximos ao Supermercado Bambé e ao prédio do Natalino, no Centro, se transformaram em verdadeiras roletas-russas urbanas. Basta analisar imagens das câmeras de segurança para constatar a quantidade absurda de infrações cometidas diariamente. Não se trata de exagero. Está tudo gravado. Está tudo escancarado.

 

E talvez uma das cenas mais revoltantes seja justamente quando até viaturas policiais atravessam sinais vermelhos sem qualquer emergência, apenas porque podem. O exemplo que deveria vir de cima acaba servindo de combustível para a cultura da impunidade. Afinal, se quem deveria fiscalizar desrespeita as regras, qual autoridade moral sobra para exigir obediência da população?

 


Enquanto isso, outro tormento inferniza quem tenta trabalhar honestamente no centro da cidade: os carros desonorização ambulante. São veículos circulando pelas ruas em volume ensurdecedor, despejando propaganda goela abaixo da população como se o sossego público não tivesse valor algum. Comerciários são obrigados a trabalhar sob poluição sonora constante. Quem está em home office enlouquece. Crianças acordam assustadas. Idosos sofrem. Mas parece que o silêncio e a paz deixaram de ser direitos em Barra de São Francisco.

 

E ainda existem os “DJ’s do asfalto”, sujeitos que transformam seus veículos em trios elétricos improvisados, com caixas de som estrondosas e músicas de gosto duvidoso invadindo a vida de quem não pediu para participar daquele espetáculo grotesco. E aqui nem existe desculpa jurídica: o artigo 228 do Código de Trânsito Brasileiro é claro. A Resolução 624/2016 do Contran também.

 

Som audível externamente que perturbe o sossego configura infração grave. E mais: nem precisa de decibelímetro. Basta o agente ouvir o barulho vindo de fora do veículo para autuar o infrator. Ou seja, o problema não é falta de lei. O problema é falta de interesse ou de coragem para aplicá-la.

 

Resolver essa desordem crônica não exige milagre, nem investimento milionário. Basta fiscalização séria, aplicação de multas, apreensão de veículos irregulares e o mínimo de vontade das autoridades responsáveis. Porque hoje o que se vê em Barra de São Francisco é uma cidade onde o cidadão ordeiro virou refém da baderna motorizada, enquanto autoridades assistem a tudo de braços cruzados, fingindo que o caos não existe.

 

E quando a tragédia finalmente acontecer, porque cedo ou tarde ela acontece, não adianta aparecer com nota de pesar, discurso emocionado e promessas vazias. As imagens das câmeras, as denúncias da população e o barulho ensurdecedor já estão avisando há muito tempo que a bomba está armada.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 


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