Por *Elvécio Andrade
Há algo profundamente errado
quando um médico passa a ser tratado como vilão justamente por reconhecer os
limites da própria especialidade. No Brasil da lacração compulsória, da
histeria virtual e da patrulha ideológica, parece que prudência profissional
virou crime, e coerência científica, ato de intolerância.
O caso do ginecologista
demitido após se recusar a atender um paciente trans escancarou mais uma vez o
estado de delírio coletivo em que parte da sociedade mergulhou. O médico alegou
algo simples, racional e absolutamente técnico: sua formação é voltada ao
atendimento de órgãos femininos biológicos.
Não houve agressão, humilhação
ou deboche. Houve apenas a honestidade de um profissional que preferiu não
atuar fora daquilo que domina. Em tempos normais, isso se chamaria
responsabilidade. Em tempos modernos, virou “discurso de ódio”.
A clínica, apressada em posar
de templo da virtude inclusiva, correu para reafirmar seu “ambiente
humanizado”. Curioso como hoje em dia o termo “humanizado” parece significar
qualquer coisa, menos respeito à autonomia médica. Porque o mesmo discurso que
prega diversidade não tolera a diversidade de pensamento. O médico pode tudo,
desde que pense exatamente como a cartilha manda.
Enquanto isso, a internet fez
aquilo que as instituições fingem não perceber: trouxe o debate de volta ao
chão da realidade. A esmagadora maioria das pessoas apoiou o médico. E não
porque odeiem trans, como os inquisidores digitais adoram insinuar, mas porque
entendem algo básico que parece proibido dizer em voz alta: autodeclaração não
altera biologia.
Um ginecologista existe para
tratar o aparelho reprodutor feminino. Da mesma forma que ninguém procura um
cardiologista para fazer canal dentário, talvez haja um pequeno detalhe lógico
em procurar o especialista adequado.
Mas o debate foi além. Houve
quem perguntasse, com ironia cortante, se agora também será possível tratar
câncer de próstata no ginecologista. A pergunta soa absurda justamente porque o
cenário inteiro se tornou absurdo. E talvez esse seja o ponto mais preocupante:
a realidade começou a ser obrigada a se ajoelhar diante de narrativas
emocionais.
O silêncio da classe médica
também chama atenção. Nenhuma defesa firme do profissional. Nenhuma
manifestação robusta sobre autonomia técnica. Nada. Talvez por medo do tribunal
das redes sociais. Talvez porque hoje muitos prefiram sacrificar colegas a
enfrentar a patrulha ideológica. É mais seguro assistir calado enquanto um
profissional é triturado publicamente por reconhecer os próprios limites.
E o mais assustador é perceber
que esse episódio não parece mais exceção. Vivemos a era em que mulheres exigem
atendimento médico para bebês reborn como se fossem crianças reais, em que
sentimentos tentam substituir ciência, e em que qualquer questionamento
racional é tratado como heresia social.
Machado de Assis certamente se
sentiria em casa. O Brasil parece caminhar rapidamente para virar uma versão
tropical de O Alienista, onde a linha entre lucidez e insanidade desapareceu de
vez. A diferença é que, naquela história, ao menos havia alguém tentando identificar
os loucos. Hoje, quem ousa apontar o óbvio corre o risco de ser internado
primeiro, ou, no mínimo, demitido.
*Elvécio Andrade é
radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos
Constitucional e Administrativo.
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