O Alienista chegou: Quando a ciência precisa pedir desculpas à loucura - Colatina News

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09/05/2026

O Alienista chegou: Quando a ciência precisa pedir desculpas à loucura

O Brasil virou um enorme hospício (Foto: reprodução)

Por *Elvécio Andrade

 

Há algo profundamente errado quando um médico passa a ser tratado como vilão justamente por reconhecer os limites da própria especialidade. No Brasil da lacração compulsória, da histeria virtual e da patrulha ideológica, parece que prudência profissional virou crime, e coerência científica, ato de intolerância.

 

O caso do ginecologista demitido após se recusar a atender um paciente trans escancarou mais uma vez o estado de delírio coletivo em que parte da sociedade mergulhou. O médico alegou algo simples, racional e absolutamente técnico: sua formação é voltada ao atendimento de órgãos femininos biológicos.

 

Não houve agressão, humilhação ou deboche. Houve apenas a honestidade de um profissional que preferiu não atuar fora daquilo que domina. Em tempos normais, isso se chamaria responsabilidade. Em tempos modernos, virou “discurso de ódio”.

 

A clínica, apressada em posar de templo da virtude inclusiva, correu para reafirmar seu “ambiente humanizado”. Curioso como hoje em dia o termo “humanizado” parece significar qualquer coisa, menos respeito à autonomia médica. Porque o mesmo discurso que prega diversidade não tolera a diversidade de pensamento. O médico pode tudo, desde que pense exatamente como a cartilha manda.

 

Enquanto isso, a internet fez aquilo que as instituições fingem não perceber: trouxe o debate de volta ao chão da realidade. A esmagadora maioria das pessoas apoiou o médico. E não porque odeiem trans, como os inquisidores digitais adoram insinuar, mas porque entendem algo básico que parece proibido dizer em voz alta: autodeclaração não altera biologia.

 


Um ginecologista existe para tratar o aparelho reprodutor feminino. Da mesma forma que ninguém procura um cardiologista para fazer canal dentário, talvez haja um pequeno detalhe lógico em procurar o especialista adequado.

 

Mas o debate foi além. Houve quem perguntasse, com ironia cortante, se agora também será possível tratar câncer de próstata no ginecologista. A pergunta soa absurda justamente porque o cenário inteiro se tornou absurdo. E talvez esse seja o ponto mais preocupante: a realidade começou a ser obrigada a se ajoelhar diante de narrativas emocionais.

 

O silêncio da classe médica também chama atenção. Nenhuma defesa firme do profissional. Nenhuma manifestação robusta sobre autonomia técnica. Nada. Talvez por medo do tribunal das redes sociais. Talvez porque hoje muitos prefiram sacrificar colegas a enfrentar a patrulha ideológica. É mais seguro assistir calado enquanto um profissional é triturado publicamente por reconhecer os próprios limites.

 

E o mais assustador é perceber que esse episódio não parece mais exceção. Vivemos a era em que mulheres exigem atendimento médico para bebês reborn como se fossem crianças reais, em que sentimentos tentam substituir ciência, e em que qualquer questionamento racional é tratado como heresia social.

 

Machado de Assis certamente se sentiria em casa. O Brasil parece caminhar rapidamente para virar uma versão tropical de O Alienista, onde a linha entre lucidez e insanidade desapareceu de vez. A diferença é que, naquela história, ao menos havia alguém tentando identificar os loucos. Hoje, quem ousa apontar o óbvio corre o risco de ser internado primeiro, ou, no mínimo, demitido.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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