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07/05/2026

Colatina não precisa de Bíblia na escola. Precisa é de vereador trabalhando

Pastor Ezequias, autor do projeto de lei inútil

Por *Elvécio Andrade

 

Enquanto a população de Colatina, no Noroeste do Espírito Santo, convive com problemas reais, saúde capenga, infraestrutura abandonada, serviços públicos que mal funcionam, a Câmara de Vereadores consegue a proeza de aprovar, com entusiasmo unânime, um projeto, pasmem, para distribuir bíblias em escolas. Sim, é isso mesmo.

 

O protagonista dessa cena absurda é o vereador Ezequias Alberto Souza (MDB), conhecido como pastor Ezequias, que aparentemente decidiu que sua função legislativa é transformar o espaço público em extensão de púlpito religioso. Porque, ao que tudo indica, fiscalizar o Executivo, propor políticas públicas eficientes ou enfrentar os problemas do Município ficou em segundo plano, bem segundo mesmo.

 

A justificativa? Voluntariedade. Sem custo. Apoio de entidades religiosas como os Gideões. Tudo muito “bonito” no papel. Mas é aí que mora o problema, e ele é constitucional. Não se trata de distribuir um livro qualquer. Trata-se de o Poder Público autorizar e estruturar a presença de uma religião específica dentro de um ambiente que deveria ser neutro: a escola.

 

E aqui entra o básico do básico que parece ter sido ignorado: A Constituição Federal de 1988 é clara ao vedar a cooperação entre Estado e religião (art. 19, I), além de também proteger a liberdade de consciência e igualdade religiosa (art. 5º, VI e VIII).

 


Ou seja: não basta dizer que é “voluntário”. Quando o Estado abre a porta, organiza e legitima, ele deixa de ser neutro. Ele passa a chancelar uma crença específica. E isso não é detalhe jurídico, é o coração do Estado laico. Porque vamos ser francos: se amanhã aparecer um projeto para distribuir Alcorão? Torá? Textos de religiões de matriz africana? Vai passar com a mesma “unanimidade”? Ou a fé só é “bem-vinda” quando é a do vereador?

 

Esse tipo de iniciativa cria algo ainda mais perigoso: pressão indireta dentro da escola. O aluno não precisa ser obrigado, basta o ambiente institucional favorecer uma religião para que o constrangimento já exista. E enquanto isso… a cidade segue com demandas urgentes ignoradas, o cidadão segue esperando soluções reais, e o Legislativo segue brincando de missão evangelizadora com estrutura pública.

 

Não é sobre religião. Cada um acredita no que quiser. É sobre limite. Quando um vereador usa o cargo para empurrar sua crença para dentro da máquina pública, ele não está legislando, está confundindo função pública com vocação religiosa. E isso tem nome: desvio de finalidade. Se essa lei for sancionada, o caminho é praticamente inevitável: ADI (Ação Direta de Inconstitucionalidade), com fundamento sólido na violação da laicidade do Estado.

 

No fim das contas, fica a pergunta que não quer calar: Quem a população elegeu? Um legislador… ou um missionário com mandato? Até quando o eleitor vai continuar elegendo pessoas despreparadas e fanáticas para representa-lo? Porque Colatina precisa de política pública, não de catequese institucional.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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