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26/04/2026

Querem colocar adolescente ao volante, mas não querem responsabilizá-lo pelos crimes

Menor dirigindo pode virar realidade

Por *Elvécio Andrade

 

Enquanto o Brasil afunda em debates urgentes sobre segurança pública, violência juvenil, violência doméstica e impunidade, a Câmara dos Deputados resolveu abrir mais uma frente de “modernização” que beira o absurdo: reduzir a idade mínima para tirar carteira de motorista.

 

Isso mesmo. A comissão especial que discute mudanças no CTB (Código de Trânsito Brasileiro) aprovou o plano de trabalho e colocou oficialmente em pauta a possibilidade de permitir que adolescentes de 16 anos possam dirigir. A justificativa? A velha ladainha de que “se pode votar, pode dirigir”. Em Brasília, a lógica parece funcionar apenas quando convém.

 

Segundo o relator da proposta, deputado Áureo Ribeiro (Solidariedade), se o jovem já escolhe seus representantes nas urnas, então teria maturidade suficiente para assumir um volante. O problema é que essa “maturidade” só vale para alguns direitos. Para as responsabilidades mais duras, a conversa muda.

 

Porque, curiosamente, quando o assunto é reduzir a maioridade penal, permitindo que jovens de 16 anos respondam criminalmente por crimes graves, o Congresso finge que o debate não existe. Projetos se acumulam nas gavetas, propostas dormem nas comissões e ninguém demonstra a mesma pressa.

 

Ou seja: para dirigir, pode. Para votar, pode. Para assumir responsabilidade penal pelos próprios atos, aí já não pode? É a típica incoerência institucional brasileira: dar direitos de adulto e manter privilégios de menor.

 


Enquanto especialistas alertam que flexibilizar regras pode colocar motoristas despreparados nas ruas, parlamentares parecem mais preocupados em criar medidas populares do que em enfrentar debates realmente espinhosos.

 

Autoescolas, médicos e técnicos da área de trânsito têm razão ao demonstrar preocupação. Colocar adolescentes no trânsito sem a devida maturidade pode aumentar riscos e transformar ruas em laboratórios de improviso. Mas o problema vai além da direção: é a mensagem contraditória que o Estado transmite.

 

Na prática, o jovem é tratado como adulto quando interessa ao sistema e como menor quando interessa à política. Pode dirigir um carro de uma tonelada em alta velocidade. Pode escolher presidente, governador e deputado. Mas não pode responder integralmente por um latrocínio. Que espécie de coerência jurídica é essa?

 

A verdade é que o Congresso Nacional mais uma vez revela sua habilidade de debater o acessório enquanto empurra o essencial para debaixo do tapete, praticando o esporte que mais gostam: a "Gaveta Olímpica". Mexer na idade para CNH gera manchete, agrada setores econômicos e produz discurso fácil. Já discutir maioridade penal exige coragem política, e isso anda em falta em Brasília.

 

No fim das contas, a mensagem é simples e muito perigosa: querem dar o volante ao adolescente, mas não querem cobrar dele responsabilidade. E depois ainda perguntam por que o país vive nesse trânsito caótico, nas ruas e nas leis.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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