Por *Elvécio Andrade
A decisão da CBV (Confederação Brasileira de
Voleibol) de estabelecer uma nova política de elegibilidade para as competições
femininas provocou um debate que está longe de ser simples. E talvez justamente
por isso seja necessário deixar de lado tanto os discursos de ódio quanto as
paixões ideológicas e discutir o assunto com racionalidade.
A nova regulamentação, publicada na sexta-feira,
14, representa uma mudança importante em relação às regras anteriores. Até
então, a participação de atletas trans em competições femininas estava
condicionada, entre outros critérios, a parâmetros hormonais. Agora, identidade
de gênero, documentação civil, cirurgias, tratamento hormonal ou supressão de
testosterona deixam de ser, isoladamente, suficientes para definir a
elegibilidade esportiva na categoria feminina.
A medida foi recebida com aplausos por muita
gente, mas também provocou forte reação de atletas trans. Tifanny Abreu, “pioneira”
e uma das principais referências trans do voleibol brasileiro, declarou-se “abalada”
e classificou a mudança como um enorme retrocesso para a inclusão no esporte.
Também comparou os novos procedimentos aos antigos métodos de verificação
sexual utilizados em competições internacionais.
É legítimo que Tifanny se sinta atingida. Sua
trajetória representa uma história pessoal e esportiva que merece respeito. Mas
também é legítimo que a sociedade discuta se inclusão significa necessariamente
colocar todos os atletas dentro das mesmas categorias competitivas. E aqui está
o ponto central. Esporte de alto rendimento não existe apenas para celebrar
identidades. Ele também trabalha com categorias criadas justamente porque
diferenças biológicas podem interferir no desempenho, na força, na velocidade,
na resistência e, em determinadas modalidades, até na segurança dos
competidores.
Homens competem entre homens. Mulheres competem
entre mulheres. Não porque uma categoria seja superior à outra, mas porque o
esporte criou divisões para garantir condições de competição minimamente
equilibradas. Então por que não discutir, com seriedade e sem preconceito, uma
terceira categoria competitiva para atletas trans? A ideia não deveria ser
apresentada como punição, segregação ou exclusão. Pelo contrário: poderia
representar uma ampliação das oportunidades esportivas.
Uma liga ou categoria específica para atletas
trans permitiria que essas pessoas continuassem competindo, treinando,
recebendo patrocínio, construindo carreiras e inspirando outras pessoas, sem
que a solução para a inclusão dependesse exclusivamente da inserção na
categoria feminina. Evidentemente, a criação de uma nova categoria não é
simples. Seria necessário discutir quantidade de atletas, critérios de
elegibilidade, federações, calendários, patrocínios, premiações, estrutura das
competições e até a viabilidade econômica de uma liga própria. Mas nenhuma
dessas dificuldades deveria impedir que o debate começasse.
Até porque há uma diferença fundamental entre
excluir alguém do esporte e criar uma categoria esportiva própria. O primeiro
caminho fecha portas. O segundo pode abrir novas portas. A discussão também
precisa ser protegida contra dois extremos igualmente nocivos. De um lado, não
se pode transformar atletas trans em alvo de humilhações, insultos ou discursos
preconceituosos. Do outro, não se pode impedir que organizações esportivas
discutam critérios de elegibilidade simplesmente porque o tema é sensível.
Respeitar a identidade de uma pessoa e
estabelecer categorias esportivas não são necessariamente coisas incompatíveis.
A CBV, portanto, merece ser ouvida e cobrada, mas sua decisão também merece ser
analisada tecnicamente, sem caça às bruxas. E, se o objetivo é realmente
construir um esporte mais inclusivo, talvez seja hora de pensar além do modelo
atual. Mulheres têm sua categoria. Homens têm sua categoria. Talvez atletas
trans também possam ter a sua.
Não como um gueto esportivo. Não como uma
punição. Não como uma forma de apagar identidades. Mas como uma categoria
competitiva própria, construída com regras claras, respeito, investimento e
dignidade. Porque inclusão de verdade não deveria significar escolher entre
direito de competir e equilíbrio esportivo. O desafio é encontrar uma maneira
de garantir os dois.
*Elvécio
Andrade é radialista,
jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e
Administrativo.
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