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16/08/2026

CBV muda regras do voleibol, atleta trans não gosta, roda à baiana e diz que não ficará calada

Tifanny Abreu, atleta trans

Por *Elvécio Andrade

 

A decisão da CBV (Confederação Brasileira de Voleibol) de estabelecer uma nova política de elegibilidade para as competições femininas provocou um debate que está longe de ser simples. E talvez justamente por isso seja necessário deixar de lado tanto os discursos de ódio quanto as paixões ideológicas e discutir o assunto com racionalidade.

 

A nova regulamentação, publicada na sexta-feira, 14, representa uma mudança importante em relação às regras anteriores. Até então, a participação de atletas trans em competições femininas estava condicionada, entre outros critérios, a parâmetros hormonais. Agora, identidade de gênero, documentação civil, cirurgias, tratamento hormonal ou supressão de testosterona deixam de ser, isoladamente, suficientes para definir a elegibilidade esportiva na categoria feminina.

 

A medida foi recebida com aplausos por muita gente, mas também provocou forte reação de atletas trans. Tifanny Abreu, “pioneira” e uma das principais referências trans do voleibol brasileiro, declarou-se “abalada” e classificou a mudança como um enorme retrocesso para a inclusão no esporte. Também comparou os novos procedimentos aos antigos métodos de verificação sexual utilizados em competições internacionais.

 

É legítimo que Tifanny se sinta atingida. Sua trajetória representa uma história pessoal e esportiva que merece respeito. Mas também é legítimo que a sociedade discuta se inclusão significa necessariamente colocar todos os atletas dentro das mesmas categorias competitivas. E aqui está o ponto central. Esporte de alto rendimento não existe apenas para celebrar identidades. Ele também trabalha com categorias criadas justamente porque diferenças biológicas podem interferir no desempenho, na força, na velocidade, na resistência e, em determinadas modalidades, até na segurança dos competidores.

 

Homens competem entre homens. Mulheres competem entre mulheres. Não porque uma categoria seja superior à outra, mas porque o esporte criou divisões para garantir condições de competição minimamente equilibradas. Então por que não discutir, com seriedade e sem preconceito, uma terceira categoria competitiva para atletas trans? A ideia não deveria ser apresentada como punição, segregação ou exclusão. Pelo contrário: poderia representar uma ampliação das oportunidades esportivas.

 


Uma liga ou categoria específica para atletas trans permitiria que essas pessoas continuassem competindo, treinando, recebendo patrocínio, construindo carreiras e inspirando outras pessoas, sem que a solução para a inclusão dependesse exclusivamente da inserção na categoria feminina. Evidentemente, a criação de uma nova categoria não é simples. Seria necessário discutir quantidade de atletas, critérios de elegibilidade, federações, calendários, patrocínios, premiações, estrutura das competições e até a viabilidade econômica de uma liga própria. Mas nenhuma dessas dificuldades deveria impedir que o debate começasse.

 

Até porque há uma diferença fundamental entre excluir alguém do esporte e criar uma categoria esportiva própria. O primeiro caminho fecha portas. O segundo pode abrir novas portas. A discussão também precisa ser protegida contra dois extremos igualmente nocivos. De um lado, não se pode transformar atletas trans em alvo de humilhações, insultos ou discursos preconceituosos. Do outro, não se pode impedir que organizações esportivas discutam critérios de elegibilidade simplesmente porque o tema é sensível.

 

Respeitar a identidade de uma pessoa e estabelecer categorias esportivas não são necessariamente coisas incompatíveis. A CBV, portanto, merece ser ouvida e cobrada, mas sua decisão também merece ser analisada tecnicamente, sem caça às bruxas. E, se o objetivo é realmente construir um esporte mais inclusivo, talvez seja hora de pensar além do modelo atual. Mulheres têm sua categoria. Homens têm sua categoria. Talvez atletas trans também possam ter a sua.

 

Não como um gueto esportivo. Não como uma punição. Não como uma forma de apagar identidades. Mas como uma categoria competitiva própria, construída com regras claras, respeito, investimento e dignidade. Porque inclusão de verdade não deveria significar escolher entre direito de competir e equilíbrio esportivo. O desafio é encontrar uma maneira de garantir os dois.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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