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14/08/2026

O dia em que a medicina virou lorota política, loucura e trilha sonora de um delírio coletivo

Kit da loucura bolsonarista

Por *Elvécio Andrade

 

Parafraseando uma daquelas pérolas que circulam pela internet, agora talvez seja possível compreender por que uma parcela dos bolsonaristas passou a protagonizar cenas que desafiam a medicina, a física e, em alguns casos, o bom senso: rezar para pneus, pedir intervenção de extraterrestres, clamar pela volta da ditadura e acreditar em teorias que fariam até um roteirista de ficção científica pedir para reescrever o episódio. A explicação, segundo a “ciência” do boteco virtual, estaria nos efeitos colaterais da Cloroquina, da Hidroxicloroquina e da Ivermectina.

 

Calma, antes que alguém comece a jogar caixa de remédio pela janela: isso é sátira. Não existe evidência científica de que esses medicamentos transformem alguém em bolsonarista, façam a pessoa conversar com pneu ou provoquem desejo súbito de pedir ajuda a ETs. Se existisse, a bula precisaria de um capítulo específico chamado “efeitos colaterais políticos e interplanetários”.

 

Mas a piada nasce da realidade: durante a pandemia, medicamentos foram apresentados por setores políticos e pelas redes sociais como supostas soluções para a Covid-19, apesar de as evidências científicas acumuladas não demonstrarem benefício clínico nenhum contra a doença.

 

A Hidroxicloroquina tem indicações legítimas, como malária e algumas doenças autoimunes. A Ivermectina é um antiparasitário utilizado contra determinadas infecções parasitárias. O problema começa quando medicamentos desenvolvidos para uma finalidade passam a ser tratados como se fossem comprimidos universais contra qualquer coisa, da Covid-19 ao apocalipse, passando pela falta de noção.

 


A OMS (Organização Mundial da Saúde) não recomenda Hidroxicloroquina ou Ivermectina para prevenir ou tratar a Covid-19, diante das evidências disponíveis sobre falta de benefício e dos riscos associados ao uso inadequado. E aí entra a parte em que a brincadeira deixa de ser tão engraçada.

 

Medicamento não é bala de hortelã. Tem indicação, dose, contraindicação, interação e efeitos adversos. O uso inadequado pode provocar problemas gastrointestinais, alterações hepáticas e, no caso da Hidroxicloroquina, efeitos cardíacos potencialmente graves. Portanto, transformar remédio em instrumento de disputa política nunca foi uma ideia particularmente brilhante.

 

E se alguém resolveu misturar tudo isso com detergente, aí já não estamos mais diante de uma discussão sobre tratamento médico. Estamos diante de uma tentativa desesperada de transformar a cozinha em laboratório farmacêutico. No fim das contas, talvez a maior lição da pandemia seja justamente esta: vírus não escolhe partido, bactéria não lê Twitter e medicamento não deveria ser obrigado a votar.

 

A ciência pode até não conseguir explicar por que alguém reza para um pneu. Mas, pelo menos nesse caso, ela já conseguiu explicar que o pneu não tem nenhuma competência para ouvir a oração. E isso, convenhamos, já é um enorme avanço civilizatório. E é sempre bom lembrar que o uso indevido desses medicamentosa tem preço: efeitos colaterais como arritmias, toxicidade hepática, distúrbios gastrointestinais e, segundo a OMS, até problemas mentais, o que explica o bolsonarismo.

 

*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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