Por *Elvécio Andrade
Parafraseando uma daquelas pérolas
que circulam pela internet, agora talvez seja possível compreender por que uma
parcela dos bolsonaristas passou a protagonizar cenas que desafiam a medicina,
a física e, em alguns casos, o bom senso: rezar para pneus, pedir intervenção
de extraterrestres, clamar pela volta da ditadura e acreditar em teorias que
fariam até um roteirista de ficção científica pedir para reescrever o episódio.
A explicação, segundo a “ciência” do boteco virtual, estaria nos efeitos
colaterais da Cloroquina, da Hidroxicloroquina e da Ivermectina.
Calma, antes que alguém comece a
jogar caixa de remédio pela janela: isso é sátira. Não existe evidência
científica de que esses medicamentos transformem alguém em bolsonarista, façam
a pessoa conversar com pneu ou provoquem desejo súbito de pedir ajuda a ETs. Se
existisse, a bula precisaria de um capítulo específico chamado “efeitos
colaterais políticos e interplanetários”.
Mas a piada nasce da realidade:
durante a pandemia, medicamentos foram apresentados por setores políticos e
pelas redes sociais como supostas soluções para a Covid-19, apesar de as
evidências científicas acumuladas não demonstrarem benefício clínico nenhum
contra a doença.
A Hidroxicloroquina tem indicações
legítimas, como malária e algumas doenças autoimunes. A Ivermectina é um
antiparasitário utilizado contra determinadas infecções parasitárias. O
problema começa quando medicamentos desenvolvidos para uma finalidade passam a
ser tratados como se fossem comprimidos universais contra qualquer coisa, da
Covid-19 ao apocalipse, passando pela falta de noção.
A OMS (Organização Mundial da Saúde)
não recomenda Hidroxicloroquina ou Ivermectina para prevenir ou tratar a
Covid-19, diante das evidências disponíveis sobre falta de benefício e dos
riscos associados ao uso inadequado. E aí entra a parte em que a brincadeira
deixa de ser tão engraçada.
Medicamento não é bala de hortelã.
Tem indicação, dose, contraindicação, interação e efeitos adversos. O uso
inadequado pode provocar problemas gastrointestinais, alterações hepáticas e,
no caso da Hidroxicloroquina, efeitos cardíacos potencialmente graves.
Portanto, transformar remédio em instrumento de disputa política nunca foi uma
ideia particularmente brilhante.
E se alguém resolveu misturar tudo
isso com detergente, aí já não estamos mais diante de uma discussão sobre
tratamento médico. Estamos diante de uma tentativa desesperada de transformar a
cozinha em laboratório farmacêutico. No fim das contas, talvez a maior lição da
pandemia seja justamente esta: vírus não escolhe partido, bactéria não lê
Twitter e medicamento não deveria ser obrigado a votar.
A ciência pode até não conseguir
explicar por que alguém reza para um pneu. Mas, pelo menos nesse caso, ela já
conseguiu explicar que o pneu não tem nenhuma competência para ouvir a oração. E
isso, convenhamos, já é um enorme avanço civilizatório. E é sempre bom lembrar
que o uso indevido desses medicamentosa tem preço: efeitos colaterais como arritmias,
toxicidade hepática, distúrbios gastrointestinais e, segundo a OMS, até problemas mentais,
o que explica o bolsonarismo.
*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado
especialista em direitos Constitucional e Administrativo.
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