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13/08/2026

Governo cria hospital veterinário público, que na verdade não é tão público como diz ser

ES terá hospital público para cães

Por *Elvécio Andrade

 

É preciso reconhecer o mérito da iniciativa. A criação do primeiro hospital público veterinário do Espírito Santo é, sem dúvida, uma medida importante para o bem-estar animal e demonstra que o poder público começa a compreender que cães e gatos também fazem parte da realidade social de milhares de famílias capixabas. Um hospital funcionando 24 horas, com consultas, cirurgias, exames, internações, urgência e emergência e outros serviços representa um avanço que merece ser celebrado.

 

Mas elogiar a iniciativa não significa fechar os olhos para uma contradição que precisa ser discutida. O hospital será público, será custeado com dinheiro público, terá investimento estimado em R$ 38,2 milhões e poderá consumir até R$ 7,5 milhões por ano dos cofres públicos. E de onde vem esse dinheiro? Do bolso do contribuinte. E aqui aparece a pergunta incômoda: se todos pagam impostos, por que o atendimento veterinário público deve ser limitado prioritariamente às famílias de baixa renda?

 

É evidente que pessoas em situação de vulnerabilidade precisam de atenção especial. Isso é política pública responsável. O problema está em transformar essa prioridade em uma espécie de exclusividade, como se os demais contribuintes não participassem do financiamento da estrutura. O cidadão que ganha salário mínimo paga imposto. O trabalhador assalariado paga imposto. O comerciante paga imposto. O empresário paga imposto. Quem compra um pão, abastece o carro, compra uma roupa ou paga uma conta também recolhe impostos embutidos no preço. Todos ajudam a financiar o Estado.

 

Portanto, quando o governo anuncia um hospital veterinário público, a discussão não deveria ser simplesmente sobre quem é pobre e quem não é. Deveria ser sobre como garantir que um serviço financiado coletivamente possa beneficiar a coletividade, estabelecendo critérios de prioridade sem transformar o dinheiro de todos em um serviço praticamente restrito a determinados grupos. Não se trata de defender que uma família de baixa renda concorra em igualdade de condições com quem pode pagar uma consulta particular. Muito pelo contrário.

 

A prioridade social é justa e necessária. Mas prioridade não deveria significar exclusão absoluta. O Estado poderia estabelecer mecanismos diferenciados: gratuidade integral para famílias de baixa renda, protetores e organizações de proteção animal; valores subsidiados para famílias de renda intermediária; e cobrança de preço público razoável para quem possui condições financeiras. Assim, o hospital continuaria cumprindo sua função social e, ao mesmo tempo, poderia ampliar o alcance dos serviços e até reforçar sua própria sustentabilidade.

 


Porque existe uma ironia difícil de ignorar: o hospital será público quando for construído, público quando receber equipamentos, público quando pagar funcionários e público quando comprar medicamentos. Mas poderá deixar de ser público, na prática, quando chegar a hora de definir quem pode utilizá-lo. O dinheiro não tem classe social.

 

O imposto pago por uma pessoa de baixa renda entra no mesmo orçamento que o imposto pago por alguém de renda elevada. O dinheiro público não vem com uma etiqueta dizendo: "este recurso pertence ao pobre" ou "este recurso pertence à classe média". É dinheiro arrecadado de toda a sociedade. Por isso, é perfeitamente legítimo aplaudir o Governo do Espírito Santo pela iniciativa e, ao mesmo tempo, cobrar que ela seja mais democrática.

 

Um hospital veterinário público 24 horas é uma excelente notícia. Um hospital veterinário público que priorize quem mais precisa é melhor ainda. Mas um hospital veterinário público que encontre uma maneira de atender também os demais contribuintes, sem retirar a prioridade dos mais vulneráveis, seria uma política pública muito mais justa.

 

Afinal, se o Estado é de todos, se o dinheiro é de todos e se os impostos são pagos por todos, o acesso aos serviços públicos não deveria começar pela pergunta "quanto você ganha?", mas pela construção de critérios que garantam prioridade a quem precisa sem transformar os demais contribuintes em meros financiadores de uma estrutura que não podem utilizar. Que o hospital venha. Que funcione. Que seja moderno, eficiente e digno. E que seja verdadeiramente público.

 

*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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