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10/08/2026

Sem privilégios: Tribunal de Justiça barra criação de vagas exclusivas para padres e pastores

Justiça derruba mordomia absurda

Por *Elvécio Andrade

 

Era só o que faltava: agora até vaga de estacionamento pode ganhar bênção, denominação e preferência religiosa. Em Itabirito, na Região Central de Minas Gerais, a Câmara Municipal aprovou uma lei que reservava vagas em estacionamentos de cemitérios e hospitais privados para padres e pastores. O prefeito vetou, os vereadores derrubaram o veto, a Prefeitura foi à Justiça e o TJMG (Tribunal de Justiça de Minas Gerais), por unanimidade, declarou a norma inconstitucional. Ainda bem.

 

Não porque padres e pastores não mereçam respeito. Merecem, assim como qualquer cidadão, pois não são melhores que ninguém. O problema é outro: por que o Estado deveria conceder a eles um privilégio simplesmente porque exercem uma função religiosa? Foi exatamente essa uma das questões levantadas pela desembargadora Teresa Cristina da Cunha Peixoto. Além do problema de competência legislativa, a magistrada apontou a afronta ao princípio do Estado laico e à isonomia.

 

E não é difícil compreender. Se existe uma vaga especial para padre e pastor, por que não existe para o rabino? Para o pai de santo? Para o líder espírita? Para o sacerdote de outra tradição? E por que não para quem não acredita em absolutamente nada? A lógica é tão frágil que basta uma pergunta para desmontá-la. E se cada grupo religioso resolvesse reivindicar seu próprio privilégio?

 

Teríamos que pintar vagas de todas as cores, criar credenciais para cada denominação e transformar estacionamento de hospital em uma espécie de congresso inter-religioso sobre rodas. Parece absurdo. E é justamente por isso que o episódio precisa ser levado a sério. Porque o problema não está em uma vaga. O problema está na naturalização da ideia de que determinadas religiões podem receber tratamento diferenciado do Estado.

 

E isso vem acontecendo em um ambiente político no qual grupos religiosos, especialmente segmentos católicos e evangélicos organizados, conquistaram enorme espaço institucional. Participar da política? Perfeitamente legítimo. Defender suas ideias? Absolutamente legítimo. Eleger representantes? Democracia. O perigo começa quando representantes políticos passam a acreditar que suas convicções religiosas pessoais podem se transformar automaticamente em normas obrigatórias para toda a sociedade.

 

Aí a coisa muda de figura. O Brasil não é uma teocracia. Não existe “Constituição segundo a Bíblia”, “Código Civil segundo o padre” ou “legislação municipal segundo o pastor”. Existe uma Constituição que deve proteger todos: quem acredita em Deus, quem acredita em vários deuses, quem segue outra tradição espiritual e quem não acredita em divindade alguma. É isso que significa Estado laico. E talvez seja justamente esse conceito que alguns setores políticos estejam fazendo questão de esquecer.

 


As igrejas possuem enorme influência social, política e econômica. Instituições religiosas têm direitos constitucionalmente protegidos, inclusive imunidade tributária nos termos da Constituição. Mas imunidade tributária não significa imunidade constitucional, imunidade crítica ou autorização para transformar convicções religiosas particulares em políticas públicas. Nenhuma religião está acima da Constituição. E nenhuma autoridade pública deveria estar acima dela para agradar ao eleitorado religioso.

 

O perigo da mistura entre religião e Estado não está apenas na possibilidade de uma igreja mandar no governo. Está também na possibilidade de o político descobrir que a fé pode ser uma poderosa ferramenta eleitoral. Basta colocar Deus no discurso, a religião no palanque e a política dentro do templo, e pronto: cria-se uma mistura explosiva em que questionar o político passa, convenientemente, a ser confundido com atacar a religião. Não é. Já vivenciamos isso, e não foi nada bom. Foi desastroso.

 

Criticar político não é perseguir religião. Defender o Estado laico não é defender o ateísmo. Questionar privilégios religiosos não é atacar a fé. É defender a República. E talvez o Brasil esteja precisando lembrar disso com urgência. Porque toda vez que o Estado concede um privilégio a determinada crença, alguém fica do lado de fora. E, quando a porta do Estado começa a ser aberta para uma religião, nada garante que amanhã ela não será fechada na cara de outra.

 

Hoje são vagas. Amanhã podem ser regras. Depois, costumes. E, quando ninguém perceber, a religião que deveria orientar a vida espiritual de seus seguidores poderá estar tentando determinar como todos os demais brasileiros devem viver. Esse é o caminho que uma democracia madura precisa evitar. O Brasil não precisa de um Evangelistão. Também não precisa de um Catolicistão. Não precisa de Estado evangélico, católico, espírita, ateu ou de qualquer outra denominação. Precisa simplesmente de Brasil.

 

Um Brasil onde o padre possa rezar, o pastor possa pregar, o pai de santo possa celebrar seus rituais, o espírita possa praticar sua fé, o ateu possa não acreditar em nada, e todos possam ter exatamente os mesmos direitos perante o Estado. Porque democracia não é escolher qual religião terá o privilégio da vez. Democracia é garantir que nenhuma religião seja dona do Estado. E, definitivamente, o Estado não é sacristia, não é templo e muito menos curral eleitoral.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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