Por *Elvécio Andrade
Sophia Barclay, a autointitulada Trans de Direita que hoje busca uma
vaga na Câmara dos Deputados por São Paulo (PL), encarna, em sua atitude e
contradições, a essência mais crua do bolsonarismo: o discurso da
“meritocracia” combinado com a prática de se aproveitar exatamente das
políticas públicas que se pretende deslegitimar.
Registros oficiais do Portal da
Transparência traçam uma linha clara e inconveniente para suas declarações
públicas. Desde 2018 há pagamentos vinculados ao nome de Sophia, cerca de R$ 21
mil ao longo dos anos (não contabilizados em 2024), relativos a programas
voltados a famílias de baixa renda, como o Bolsa Família e o Gás do Povo.
Pagamentos que, não por acaso, coexistem com sua narrativa nas redes: de um
lado, a pose de quem combate “beneficiários preguiçosos”; de outro, a realidade
concreta de quem recebeu, recebe ou teve vínculo com o Cadastro Único.
A hipocrisia salta aos olhos. Aos 18
anos, quando ainda morava no Rio de Janeiro, Sophia entrou no Bolsa Família via
CadÚnico, instrumento criado precisamente para identificar quem precisa de
apoio do Estado. Anos depois, já ocupando espaço entre influenciadores e
provocadores do espectro de direita, ela passa a atacar o programa e seus
beneficiários, afirmando que muitos se “acomodam”. Em exatamente o mês em que
ridicularizou quem depende do auxílio, consta nos registros um pagamento de R$
600,00 em seu nome. Coincidência? Para o eleitor informado, é evidência
suficiente de uma contradição profunda entre discurso e prática.
Em 2026, as contradições se repetem
em relação ao Gás do Povo. Em julho, Sophia contestou o subsídio e defendeu uma
“redução do preço” do botijão como solução ideal, ao mesmo tempo em que os
documentos mostram que, em março daquele ano, ela constava entre os
beneficiários do programa de gás. A tese de que políticas públicas são “mal
desenhadas” soa seletiva quando a pessoa que as desqualifica ainda usufrui de
suas ajudas.
Durante a pré-campanha, sua proposta
de condicionar o Bolsa Família a serviços comunitários para “beneficiários
aptos ao trabalho” soa menos como reforma social e mais como moralismo
punitivo: penalizar a pobreza com trabalho obrigatório, retirar dignidade e
transformar a assistência em espetáculo de fiscais da “ordeira produtividade”.
É a velha tática do bolsonarismo social, que culpa as vítimas e transforma a
proteção social em moeda de vergonha pública. Ao ser confrontada com os dados,
Sophia tentou a defesa pronta: disse desconhecer os registros e atribuiu tudo à
presença de seu nome no CadÚnico de um familiar.
A desculpa é conhecida, repetida por
políticos acossados por provas documentais. Só que a desculpa não basta.
CadÚnico não é autodeclaração de filantropia; é um sistema que exige
informações e vínculos. Negar responsabilidade diante de pagamentos oficiais
que coincidem com seu próprio discurso é, no mínimo, um expediente retórico
para escapar do embaraço, no máximo, um reflexo de como o bolsonarismo atua:
falar contra o Estado ao mesmo tempo em que se beneficia dele, e, quando
desmascarado, fingir ignorância.
O eleitor merece saber: políticas
públicas não são tema apenas para palanque. São vidas, critérios de acesso,
dinheiro que garante alimentação, gás para cozinhar, condições mínimas de
sobrevivência. Desqualificar beneficiários enquanto se recebe ajuda do sistema
é um tapa na cara de quem sobrevive com esses programas e um desserviço à
honestidade pública. Sophia Barclay pode tentar vestir o figurino combativo da
direita conservadora; não consegue, porém, esconder o cheiro de oportunismo.
Não se trata apenas de incoerência
pessoal. Trata-se de um padrão de atuação política que mina a confiança
pública: condenar o Estado e, ao mesmo tempo, usufruir do que ele distribui;
pregar a austeridade moral enquanto cobra a própria fatia de assistência;
propor punições para os pobres e, quando chamado a contas, alegar erro
burocrático. O mínimo que se exige de quem quer legislar é transparência e
responsabilidade.
O máximo que a cidadania pode cobrar
de Sophia Barclay é coerência: explicar, com documentos e clareza, por que as
transferências ocorreram, por que ela as recebeu, e por que atrela seu discurso
público a políticas que, sabe-se agora por registros oficiais, a beneficiaram.
Sem isso, resta apenas o vocabulário do moralismo seletivo, o mesmo que
desumaniza beneficiários e protege privilégios quando convém. A política merece
mais do que slogans. A democracia merece menos hipócritas.
*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado
especialista em direitos Constitucional e Administrativo.
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