Por *Elvécio Andrade
Há situações que ultrapassam o limite
do absurdo e entram perigosamente no território daquilo que deveria provocar
indignação coletiva. O caso envolvendo a “pastora” Renata Kelly Vieira, em
Contagem/MG, é uma delas. Segundo a investigação da Polícia Civil, Renata foi
indiciada por lesão corporal, difamação e injúria depois de um episódio
ocorrido durante a entrega de móveis. O problema começou porque um sofá não
cabia no elevador. Até aí, um contratempo absolutamente banal. O que veio
depois, porém, está longe de ser banal.
As imagens analisadas pelos
investigadores mostram, segundo o inquérito, a mulher desferindo três tapas no
rosto do entregador Luís Henrique Godzikowski de Souza, mordendo a perna dele e
ainda arremessando uma pedra em sua direção. Testemunhas, entre elas o zelador
do condomínio, também afirmaram que o trabalhador não reagiu às agressões e
tentou apenas se afastar. Mas existe um detalhe particularmente assustador
nessa história.
Em determinado momento, conforme o
relato da investigação, a própria agressora correu em direção ao entregador,
agarrou- se a ele e passou a gritar que estava sendo agredida. Se não fossem as
imagens confirmar essa dinâmica, não estaríamos diante apenas de uma discussão
que saiu do controle. Estaríamos diante de algo muito mais sério: a
possibilidade de uma pessoa tentar construir uma narrativa de vítima enquanto
as imagens registram uma realidade completamente diferente.
E aí surge a pergunta que deveria
incomodar qualquer pessoa que acredita minimamente na Justiça: E se não
houvesse câmeras? E se não existisse um zelador ou qualquer outra testemunha? E
se o trabalhador estivesse sozinho diante daquela situação? Talvez estivéssemos
diante de uma história completamente diferente, como tantas que acontecem todos
os dias, em que um homem é falsamente denunciado por uma mulher em decorrência
de uma lei esdruxula, que não permite o contraditório e destrói a vida do
acusado.
Imagine um entregador humilde,
trabalhando, sendo acusado por uma mulher de agressão. Imagine a acusação
chegando à polícia antes que ele conseguisse explicar o que realmente
aconteceu. Imagine a versão dela sendo repetida nas redes sociais para mais de
um milhão de seguidores. E imagine, pior ainda, que não houvesse uma única
imagem capaz de desmontar a narrativa. É justamente aí que mora o perigo.
Porque uma acusação não pode se
transformar automaticamente em condenação. Uma pessoa não pode ser transformada
em culpada simplesmente porque alguém gritou primeiro, chorou primeiro ou
chegou primeiro à delegacia. Justiça não pode funcionar pelo volume da voz de
quem acusa. E muito menos pelo número de seguidores de quem acusa.
Depois do episódio, segundo a
investigação, Renata também teria utilizado seu Instagram, com mais de um
milhão de seguidores, para chamar o entregador de “bandido”, “vagabundo”,
“canalha” e “oportunista maldito”, além de fazer afirmações sobre a orientação
sexual dele. A Polícia Civil considerou, por isso, a causa de aumento prevista
para crimes contra a honra praticados ou divulgados pela internet. Aqui existe
outro problema gigantesco: o tribunal das redes sociais.
Na internet, basta uma acusação para
milhares de pessoas julgarem, condenarem, humilharem e destruírem reputações em
questão de minutos. E depois? Depois ninguém aparece para devolver a dignidade
perdida. Ninguém apaga completamente o vídeo. Ninguém consegue fazer
desaparecer todas as ofensas. Ninguém consegue devolver ao acusado o tempo em
que foi tratado como criminoso. É por isso que esse caso deveria servir de
alerta muito além da briga por causa de um sofá.
Porque, quando uma acusação falsa ou
distorcida encontra uma multidão disposta a acreditar sem investigar, a Justiça
pode ser substituída pelo linchamento virtual. E há uma ironia ainda maior
quando tudo isso envolve alguém que se apresenta publicamente como “pastora”. Não
se trata aqui de atacar religião, fé ou qualquer igreja. Trata-se de cobrar
coerência de quem ocupa uma posição que pressupõe valores como verdade,
respeito, compaixão e responsabilidade.
Ser chamada de “pastora” não coloca
ninguém acima da lei. Da mesma forma que ser entregador não coloca ninguém
abaixo dela. A dignidade de um trabalhador não vale menos porque ele está
usando uniforme de entrega. E talvez essa seja uma das maiores lições desse
episódio. A verdade não pode depender de quem tem mais dinheiro, mais
seguidores, mais influência, mais poder ou maior capacidade de fazer barulho. A
verdade precisa depender das provas.
Neste caso, felizmente, havia
câmeras. Havia testemunhas. Havia registros capazes de confrontar versões. Mas
quantos casos não têm? Quantas pessoas já foram apontadas como agressoras sem
que houvesse uma câmera para mostrar o contrário? Quantas reputações foram
destruídas por uma acusação que depois se revelou falsa? Quantas vidas podem
ter sido arruinadas porque alguém acreditou primeiro e investigou depois?
Não é possível afirmar que isso
aconteceria com o entregador se não existissem imagens e testemunhas. Mas é
perfeitamente legítimo denunciar o risco de uma injustiça desse tipo quando uma
acusação pública pode ser feita sem provas suficientes e imediatamente
transformada em condenação social. E é justamente por isso que precisamos parar
de confundir acusação com prova, choro com verdade e indignação com Justiça. A
Justiça precisa ouvir os dois lados. Precisa investigar. Precisa confrontar
versões. Precisa procurar provas.
E, sobretudo, precisa lembrar de uma
coisa que parece óbvia, mas que o mundo das redes sociais insiste em esquecer: ninguém
deve ser condenado simplesmente porque alguém apontou o dedo. No caso do
entregador, as câmeras falaram. As testemunhas falaram. A investigação falou. E,
desta vez, a tecnologia ajudou a impedir que uma versão isolada pudesse apagar
aquilo que realmente aconteceu. Mas fica a pergunta que deveria ecoar para
muito além de Contagem: quantas vezes a verdade não tem uma câmera para
defendê-la?
*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado
especialista em direitos Constitucional e Administrativo.
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