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19/08/2026

“Pastora” que agrediu entregador e tentou se passar por vítima é indiciada por três crimes

"Pastora" (isso existe?) agride entregador

Por *Elvécio Andrade

 

Há situações que ultrapassam o limite do absurdo e entram perigosamente no território daquilo que deveria provocar indignação coletiva. O caso envolvendo a “pastora” Renata Kelly Vieira, em Contagem/MG, é uma delas. Segundo a investigação da Polícia Civil, Renata foi indiciada por lesão corporal, difamação e injúria depois de um episódio ocorrido durante a entrega de móveis. O problema começou porque um sofá não cabia no elevador. Até aí, um contratempo absolutamente banal. O que veio depois, porém, está longe de ser banal.

 

As imagens analisadas pelos investigadores mostram, segundo o inquérito, a mulher desferindo três tapas no rosto do entregador Luís Henrique Godzikowski de Souza, mordendo a perna dele e ainda arremessando uma pedra em sua direção. Testemunhas, entre elas o zelador do condomínio, também afirmaram que o trabalhador não reagiu às agressões e tentou apenas se afastar. Mas existe um detalhe particularmente assustador nessa história.

 

Em determinado momento, conforme o relato da investigação, a própria agressora correu em direção ao entregador, agarrou- se a ele e passou a gritar que estava sendo agredida. Se não fossem as imagens confirmar essa dinâmica, não estaríamos diante apenas de uma discussão que saiu do controle. Estaríamos diante de algo muito mais sério: a possibilidade de uma pessoa tentar construir uma narrativa de vítima enquanto as imagens registram uma realidade completamente diferente.

 

E aí surge a pergunta que deveria incomodar qualquer pessoa que acredita minimamente na Justiça: E se não houvesse câmeras? E se não existisse um zelador ou qualquer outra testemunha? E se o trabalhador estivesse sozinho diante daquela situação? Talvez estivéssemos diante de uma história completamente diferente, como tantas que acontecem todos os dias, em que um homem é falsamente denunciado por uma mulher em decorrência de uma lei esdruxula, que não permite o contraditório e destrói a vida do acusado.

 

Imagine um entregador humilde, trabalhando, sendo acusado por uma mulher de agressão. Imagine a acusação chegando à polícia antes que ele conseguisse explicar o que realmente aconteceu. Imagine a versão dela sendo repetida nas redes sociais para mais de um milhão de seguidores. E imagine, pior ainda, que não houvesse uma única imagem capaz de desmontar a narrativa. É justamente aí que mora o perigo.

 

Porque uma acusação não pode se transformar automaticamente em condenação. Uma pessoa não pode ser transformada em culpada simplesmente porque alguém gritou primeiro, chorou primeiro ou chegou primeiro à delegacia. Justiça não pode funcionar pelo volume da voz de quem acusa. E muito menos pelo número de seguidores de quem acusa.

 

Depois do episódio, segundo a investigação, Renata também teria utilizado seu Instagram, com mais de um milhão de seguidores, para chamar o entregador de “bandido”, “vagabundo”, “canalha” e “oportunista maldito”, além de fazer afirmações sobre a orientação sexual dele. A Polícia Civil considerou, por isso, a causa de aumento prevista para crimes contra a honra praticados ou divulgados pela internet. Aqui existe outro problema gigantesco: o tribunal das redes sociais.

 

Na internet, basta uma acusação para milhares de pessoas julgarem, condenarem, humilharem e destruírem reputações em questão de minutos. E depois? Depois ninguém aparece para devolver a dignidade perdida. Ninguém apaga completamente o vídeo. Ninguém consegue fazer desaparecer todas as ofensas. Ninguém consegue devolver ao acusado o tempo em que foi tratado como criminoso. É por isso que esse caso deveria servir de alerta muito além da briga por causa de um sofá.

 


Porque, quando uma acusação falsa ou distorcida encontra uma multidão disposta a acreditar sem investigar, a Justiça pode ser substituída pelo linchamento virtual. E há uma ironia ainda maior quando tudo isso envolve alguém que se apresenta publicamente como “pastora”. Não se trata aqui de atacar religião, fé ou qualquer igreja. Trata-se de cobrar coerência de quem ocupa uma posição que pressupõe valores como verdade, respeito, compaixão e responsabilidade.

 

Ser chamada de “pastora” não coloca ninguém acima da lei. Da mesma forma que ser entregador não coloca ninguém abaixo dela. A dignidade de um trabalhador não vale menos porque ele está usando uniforme de entrega. E talvez essa seja uma das maiores lições desse episódio. A verdade não pode depender de quem tem mais dinheiro, mais seguidores, mais influência, mais poder ou maior capacidade de fazer barulho. A verdade precisa depender das provas.

 

Neste caso, felizmente, havia câmeras. Havia testemunhas. Havia registros capazes de confrontar versões. Mas quantos casos não têm? Quantas pessoas já foram apontadas como agressoras sem que houvesse uma câmera para mostrar o contrário? Quantas reputações foram destruídas por uma acusação que depois se revelou falsa? Quantas vidas podem ter sido arruinadas porque alguém acreditou primeiro e investigou depois?

 

Não é possível afirmar que isso aconteceria com o entregador se não existissem imagens e testemunhas. Mas é perfeitamente legítimo denunciar o risco de uma injustiça desse tipo quando uma acusação pública pode ser feita sem provas suficientes e imediatamente transformada em condenação social. E é justamente por isso que precisamos parar de confundir acusação com prova, choro com verdade e indignação com Justiça. A Justiça precisa ouvir os dois lados. Precisa investigar. Precisa confrontar versões. Precisa procurar provas.

 

E, sobretudo, precisa lembrar de uma coisa que parece óbvia, mas que o mundo das redes sociais insiste em esquecer: ninguém deve ser condenado simplesmente porque alguém apontou o dedo. No caso do entregador, as câmeras falaram. As testemunhas falaram. A investigação falou. E, desta vez, a tecnologia ajudou a impedir que uma versão isolada pudesse apagar aquilo que realmente aconteceu. Mas fica a pergunta que deveria ecoar para muito além de Contagem: quantas vezes a verdade não tem uma câmera para defendê-la?

 

*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.


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