Minas Gerais parece ter entrado definitivamente
na rota das candidaturas que desafiam qualquer limite entre discurso religioso,
espetáculo político e comportamento público. A mais nova personagem dessa
história é a "pastora" (isso existe?) Renata Vieira, apontada como pré-candidata a deputada
estadual pelo PL, que se envolveu em uma violenta discussão com um entregador
de móveis no Bairro Cabral, em Contagem, na Região Metropolitana de Belo
Horizonte/MG.
O episódio, que poderia ser apenas mais uma
ocorrência de conflito entre duas pessoas, ganhou contornos ainda mais graves
diante das imagens das câmeras de segurança. Os registros mostram, segundo as
informações divulgadas sobre o caso, a religiosa desferindo tapas, proferindo
xingamentos e até arremessando uma pedra contra o profissional. Depois, veio a
informação de que o trabalhador er’a um agente da Polícia Rodoviária Federal
que estava realizando trabalhos extras para complementar a renda. Por razões de
segurança, sua identidade não será divulgada.
O que causa indignação, entretanto, não é
apenas a violência registrada pelas câmeras. É também a sensação, compartilhada
por muita gente, de que existe uma espécie de régua diferente para medir os
atos praticados por determinadas pessoas. A ausência de prisão em flagrante da
agressora, mesmo diante da existência de imagens do episódio, provocou revolta
nas redes sociais e levantou questionamentos sobre a forma como casos
semelhantes são tratados pelas autoridades. A pergunta que ficou no ar é
simples: e se fosse o contrário?
Se o trabalhador tivesse sido acusado de
agredir uma mulher e não existissem imagens comprovando o que realmente
aconteceu, será que a história teria o mesmo desfecho? Essa é a dúvida que
alimenta a indignação de muitos brasileiros que acompanham diariamente casos em
que denúncias são feitas sem provas robustas e pessoas acabam presas
injustamente e submetidas a julgamentos públicos antes mesmo de qualquer
investigação séria.
No caso de Contagem, as câmeras de segurança
foram fundamentais para apresentar uma versão objetiva dos acontecimentos. Sem
elas, a narrativa poderia ser completamente diferente. E é justamente aí que
mora um dos maiores perigos: quando a verdade depende exclusivamente da palavra
de uma das partes, qualquer acusação pode ser transformada em arma de vingança,
perseguição ou destruição da reputação alheia.
Mesmo diante das imagens, Renata Vieira continuou
insistindo na versão de que foi vítima de agressão por ter sido identificada
como bolsonarista. O argumento, porém, acabou sendo colocado em xeque pela
própria existência das gravações, que passaram a ocupar o centro da discussão.
A religião, infelizmente, também entrou no meio
da confusão. E é preciso dizer, mais uma vez, aquilo que deveria ser óbvio: ser
pastor, padre, pai de santo ou qualquer outra liderança religiosa não
transforma automaticamente ninguém em pessoa acima de críticas, suspeitas ou
responsabilidades. Fé é uma coisa. Política é outra. O problema começa quando
determinados políticos usam a religião como uma espécie de salvo-conduto moral,
como se o título religioso fosse suficiente para garantir caráter, competência
administrativa ou compromisso com a população. Não é.
Nas redes sociais, o episódio provocou uma
enxurrada de críticas. Um internauta ironizou a possibilidade de uma
candidatura baseada nesse tipo de comportamento e disparou: "E o pior é
que uma pessoa desequilibrada dessas corre o risco de ser eleita, pois os
mineiros não sabem votar. Tanto é verdade, que elegeram Nikolas Ferreira e
Cleitinho."
Outro internauta foi além e criticou a mistura
entre religião e política: "Os eleitores brasileiros precisam com urgência
parar de misturar religiosidade com política. A pessoa ser pastor, padre, pai
de santo ou o que quer que seja, não significa que será um político competente,
que lute pelo povo." A discussão é pertinente, embora generalizações sobre
o eleitorado não contribuam para o debate democrático. O ponto central, porém,
permanece: cargo religioso não é certificado de competência política.
O eleitor precisa avaliar candidatos pelo que
fazem, pelo que defendem, pelo histórico que apresentam e, principalmente, pela
capacidade de respeitar o próximo, inclusive nos momentos de conflito. Porque,
convenhamos, se uma pessoa pretende ocupar uma cadeira no Legislativo e
representar milhares de cidadãos, o mínimo que se espera é equilíbrio,
responsabilidade e respeito às leis.
E fica uma reflexão incômoda: se diante das
câmeras alguém perde o controle dessa maneira, o que aconteceria longe delas? A
política brasileira já tem problemas demais para ainda precisar transformar
templos religiosos em palanques eleitorais e comportamentos agressivos em
cartão de visitas. Minas Gerais merece representantes preparados para enfrentar
os problemas reais da população. O eleitor merece candidatos que apresentem
propostas, não apenas discursos inflamados, títulos religiosos ou narrativas
políticas convenientes.
No fim das contas, a pergunta que deveria orientar
qualquer eleição é muito simples: quem está realmente preparado para
representar o povo? Porque, quando a religião vira escudo, a política vira
palco e a verdade precisa ser resgatada pelas câmeras de segurança, talvez seja
hora de o eleitor parar, observar e pensar muito bem antes de depositar seu
voto na urna.
*Elvécio Andrade é radialista,
jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e
Administrativo.
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