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18/08/2026

Ação de Magno Malta contra técnica de enfermagem é arquivada pela Justiça do DF

Tribunal de Justiça do Distrito Federal

Por *Elvécio Andrade

 

Há algo profundamente perturbador quando o sistema de Justiça parece funcionar com velocidades diferentes conforme o CEP, o sobrenome ou o tamanho do poder de quem está do outro lado. O episódio envolvendo o senador bolsonarista Magno Malta (PL), ou Malígno Malta como é conhecido por alguns, e uma técnica de enfermagem do Hospital DF Star é mais um daqueles casos que deveriam provocar indignação muito além das redes sociais.

 

A profissional afirmou à Polícia Civil do Distrito Federal na época que tinha recebido um tapa no rosto desferido pelo senador durante um exame de angiotomografia, depois de ocorrer extravasamento de contraste no braço dele. Malta nega que tenha cometido qualquer agressão e sustenta que apenas reagiu à intensa dor provocada pelo procedimento. Mas existe um detalhe que torna a história ainda mais grave.

 

Segundo informações divulgadas após o exame pericial, o IML (Instituto Médico Legal) encontrou uma escoriação no lado direito do nariz da técnica de enfermagem, lesão apontada como compatível com a dinâmica relatada por ela. Os óculos da profissional também foram danificados no episódio. E agora vem a parte que precisa ser discutida com seriedade. A ação penal movida por Malta contra a trabalhadora, segundo os dados do processo, acabou arquivada pela Justiça do Distrito Federal no dia 211 de julho por ausência de justa causa.

 

 O entendimento do Ministério Público foi de que não havia elementos mínimos para atribuir à técnica negligência, imprudência ou imperícia. A intercorrência foi considerada um risco inerente ao procedimento, enquanto um médico plantonista informou que os protocolos foram seguidos regularmente. Se é assim, ótimo. É exatamente para isso que existe a Justiça: para impedir que uma pessoa seja criminalizada por algo que não cometeu. Mas então surge uma pergunta inevitável: e quando a acusação é contra alguém poderoso?

 

Porque a técnica de enfermagem continua sendo a parte mais frágil dessa história. Ela não possui mandato parlamentar, não tem tribuna no Senado, não dispõe de uma estrutura política ao seu redor e não pode transformar uma entrevista em pronunciamento nacional. É uma trabalhadora. E trabalhadores no Brasil sabem, muitas vezes da maneira mais cruel, como funciona o peso da máquina estatal.

 

Para o cidadão comum, uma acusação pode significar delegacia, constrangimento, exposição, perda do emprego, medo, despesas com advogado e uma vida inteira tentando provar que não fez aquilo de que foi acusado. Mas quando a pessoa acusada é uma autoridade poderosa, a sensação que fica para muita gente é de que o sistema passa a andar em outra velocidade. E isso é perigosíssimo.

 


Não se trata de afirmar que MagnoMalta é culpado pela agressão. A acusação ainda está sendo discutida judicialmente, e ele nega categoricamente que tenha agredido a profissional. O processo em que a técnica o acusa continua em tramitação. O problema é outro. É perguntar se o tratamento dado a uma trabalhadora seria exatamente o mesmo caso ela tivesse dado um tapa no rosto de um senador da República. Será que haveria a mesma tolerância?

 

Será que a máquina policial seria igualmente cuidadosa? Será que as instituições demonstrariam a mesma cautela? Ou será que a trabalhadora já estaria sendo apresentada como criminosa antes mesmo de qualquer investigação terminar? Essa é a verdadeira questão. Porque Justiça não pode ser apenas formalmente igual. Ela precisa ser materialmente igual. Não pode existir uma Justiça para quem tem poder e outra para quem precisa pegar ônibus cedo para trabalhar. Não pode existir uma Justiça com luvas de seda para autoridades e mãos de ferro para trabalhadores.

 

Não pode haver um sistema em que o pobre precisa provar que é inocente enquanto o poderoso ganha o benefício permanente da dúvida. E existe ainda outro aspecto extremamente preocupante: profissionais de saúde já enfrentam diariamente agressões, ameaças, desrespeito e violência durante o exercício de suas funções. Quando uma trabalhadora denuncia ter sido agredida por uma autoridade dentro de um hospital, o caso deveria ser tratado com máxima seriedade, independentemente de quem seja o acusado.

 

A própria cobertura jornalística registrou que o Hospital DF Star abriu apuração interna e prestou suporte à profissional. O que não pode acontecer é a velha inversão brasileira: quem está em posição de vulnerabilidade termina tendo de se defender justamente daquele que possui muito mais poder, influência e visibilidade. E é aí que a Justiça precisa provar que não tem dono. Se a técnica errou, que seja responsabilizada, mas somente se houver prova. Se Magno Malta não agrediu ninguém, que seja inocentado, também mediante prova.

 

Mas se houve agressão, o fato de o acusado ser senador da República não pode transformar a investigação em uma procissão de obstáculos. Mandato não é salvo-conduto para cometer crimes. Poder não é imunidade moral. Cargo público não é licença para humilhar ninguém. E talvez seja justamente por isso que esse episódio incomode tanto. Porque, no Brasil, o cidadão comum conhece muito bem a força do Estado quando ela vem contra ele.

 

O que ele ainda espera descobrir é se essa mesma força funciona quando o alvo veste terno, ocupa uma cadeira no Senado e possui poder suficiente para fazer barulho. A Justiça brasileira precisa responder a essa pergunta não com discursos, mas com fatos. Porque, quando a balança começa a parecer inclinada para o lado dos poderosos, não é apenas uma técnica de enfermagem que perde a confiança. É toda a sociedade que começa a desconfiar de que, neste país, a Justiça pode até ser cega, mas aparentemente ainda consegue enxergar muito bem quem está diante dela.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.


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