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18/05/2026

A república da lavanderia: do rachadão ao “filminho” de R$ 234 Milhões

As três faces da corrupção

Por *Elvécio Andrade

 

Tem coisa que nem roteirista de série sobre corrupção teria coragem de inventar. Mas o Brasil resolveu abolir a ficção e transformar o absurdo em rotina administrativa. O novo capítulo dessa tragicomédia tropical envolve uma mansão de R$ 3,6 milhões em Arlington, no Texas, comprada por um fundo ligado ao advogado de Eduardo Bolsonaro, o famoso Dudu Bananinha, patriota de aeroporto que decidiu atacar o Brasil morando confortavelmente nos Estados Unidos.

 

E o detalhe mais “coincidente” de todos? O mesmo fundo aparece ligado ao dinheiro de André Esteves Vorcaro, aquele empresário citado na história dos R$ 61 milhões e do célebre pedido para “fazer um filminho”. Sim, um “filminho”. Porque aparentemente no Brasil contemporâneo, milhões de reais circulam com a naturalidade de quem compra pipoca no cinema.

 

A casa milionária foi comprada em Arlington. Quem assinou? André Porciúncula, ex-secretário do governo Bolsonaro e sócio de Eduardo em outra empresa. Tudo muito familiar, muito íntimo, muito aconchegante. Uma verdadeira confraria imobiliária patriótica instalada em solo estadunidense.

 

E quando perguntaram quem mora na casa? A resposta foi digna de prêmio de cinismo do ano: “Essa informação não é de interesse público”. Claro. O dinheiro circula, o imóvel aparece, os personagens se repetem, os vínculos empresariais surgem, mas saber quem mora na mansão virou assunto confidencial. Transparência, pelo visto, só vale quando é para atacar adversários políticos.

 

Enquanto isso, a Polícia Federal investiga se parte desse dinheiro teria servido para bancar a luxuosa temporada estadunidense de Eduardo Bolsonaro, o Poka Rola, como é conhecido nas redes sociais, justamente no período em que fazia lobby contra o STF diretamente dos Estados Unidos. Patriotismo gourmet é isso: fala-se em soberania nacional tomando café no Texas.

 


E como se não bastassem os R$ 134 milhões ligados ao escândalo envolvendo aposentados e pensionistas do INSS, velhinhos roubados enquanto discursam sobre moralidade, ainda aparece a prefeitura de São Paulo despejando mais R$ 100 milhões de dinheiro público nessa nebulosa engrenagem. A conta chega a R$ 234 milhões. Duzentos e trinta e quatro milhões. Não é política. Já está parecendo franquia cinematográfica. “Interestelar” ficou pequeno. O próximo passo é lançar “Velozes e furiosos: Lavagem em Arlington”.

 

O mais revoltante não é apenas o volume de dinheiro. É a naturalização da obscenidade. Uma família que começou cercada por denúncias de rachadinha, depois descobriu talentos extraordinários no mercado imobiliário e agora aparentemente encontrou ouro no ramo do entretenimento político-financeiro.

 

A meritocracia brasileira realmente é fascinante. Uns estudam a vida inteira para financiar um apartamento em 35 anos. Outros transformam “filminhos” em mansões milionárias nos EUA. E o povo? Ah, o povo segue ouvindo discurso sobre corrupção seletiva, patriotismo e defesa da família enquanto cifras astronômicas atravessam fronteiras como se fossem bagagem diplomática.

 

O cheiro disso tudo não é de escândalo comum. É odor industrial. Tem aparência de lavanderia gigante funcionando em rotação máxima. E não vai existir detergente suficiente no planeta para limpar tamanha sujeira caso as investigações avancem até o fim. A pergunta que fica é simples: Até quando o Brasil continuará tratando absurdos monumentais como se fossem apenas “polêmicas de internet”?

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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