Por *Elvécio Andrade
A morte do cão Orelha não foi apenas a morte brutal de
um animal indefeso. Foi também a execução pública da esperança de que, no
Brasil, ricos possam algum dia responder pelos próprios atos como qualquer
cidadão comum. O que aconteceu em Florianópolis escancara, mais uma vez, a face
mais podre de um sistema que se ajoelha diante do dinheiro, da influência e dos
sobrenomes poderosos.
Orelha era conhecido,
querido e acolhido por moradores e frequentadores da Praia Brava, em
Florianópolis, Santa Catarina. Um cão comunitário, daqueles que recebem carinho
de todos, símbolo de afeto e convivência. Mas no dia 04 de janeiro de 2026, a
barbárie falou mais alto. O animal apareceu com ferimentos gravíssimos,
especialmente na cabeça, vítima de uma crueldade covarde que chocou o país
inteiro. Levado às pressas para uma clínica veterinária, não resistiu. Precisou
ser sacrificado para cessar o sofrimento imposto por mãos humanas.
E então começou o
espetáculo vergonhoso que o Brasil conhece tão bem: o desfile da impunidade. Quatro
adolescentes, filhos de famílias ricas, foram apontados como responsáveis pelos
maus-tratos. Havia testemunha, havia indignação popular e havia comoção
nacional. Mas, misteriosamente, o tempo foi limpando a barra de cada um deles.
Um por um, foram sendo “inocentados”, até sobrar apenas um pedido de internação
provisória, que também não deu em nada. No final, ninguém pagou. Absolutamente
ninguém.
Enquanto isso, o
porteiro do condomínio, principal testemunha do caso, viu a própria vida ser
destruída. Foi ameaçado por um dos pais dos adolescentes e perdeu o emprego. No
Brasil da elite intocável, testemunhar contra rico pode ser mais perigoso do
que cometer o crime. O recado é claro e cruel: quem enfrenta os poderosos acaba
punido no lugar deles.
Agora, o Ministério
Público de Santa Catarina resolve jogar sal sobre a ferida aberta e
praticamente chamar toda a população de idiota. Sustenta que Orelha não morreu das agressões, mas de
uma doença. E vai além: afirma que não há provas de que os adolescentes tenham
atacado o animal. Como consequência, pediu o arquivamento do caso e ainda quer
investigar possíveis irregularidades na condução do inquérito policial.
A pergunta que
revolta qualquer pessoa minimamente humana é inevitável: e os outros dois cães
agredidos no mesmo episódio? Eles também estavam “doentes”? Coincidentemente,
um deles acabou adotado pelo delegado do caso. O Ministério Público não
explicou essa parte da história. No fim, sobra a sensação sufocante de que a
verdade foi enterrada junto com Orelha.
O caso virou retrato
perfeito de um país onde a justiça muda de peso conforme o tamanho da conta
bancária. Um país em que adolescentes ricos acusados de barbaridade recebem
tratamento quase terapêutico, enquanto pobres apodrecem em celas por crimes
muito menores. Um país em que políticos condenados por corrupção bilionária
conseguem prisão domiciliar em mansões, cercados de conforto, enquanto vítimas
reais seguem esquecidas.
E talvez o mais
assustador seja perceber que esses adolescentes continuam livres, circulando
normalmente, protegidos pela blindagem social e financeira das famílias. Sem
consequência, sem arrependimento público e sem punição exemplar. Aprendendo,
desde cedo, a lição mais nojenta que o Brasil ensina às elites: dinheiro compra
silêncio, influência compra versões e poder compra absolvições.
Orelha morreu duas vezes. A
primeira, pelas agressões brutais praticadas pelos monstros adolescentes. E a segunda,
pela covardia institucional de um sistema que parece incapaz de fazer justiça
quando os acusados pertencem à camada “certa” da sociedade. Justiça por Orelha. Isso não pode terminar
assim.
*Elvécio Andrade é
radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos
Constitucional e Administrativo.
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