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05/05/2026

Socorro distante, morte próxima: centralização em Vitória expõe falha grave no atendimento

Serviços locais com centrais em Vitória

Por *Elvécio Andrade

 

Uma engrenagem fria, distante e desajustada pode estar custando vidas no Noroeste capixaba. E o mais revoltante: sob o silêncio conveniente de quem deveria explicar. Moradores de Barra de São Francisco denunciam uma situação alarmante: falhas recorrentes no atendimento de urgência do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), Corpo de Bombeiros e Polícia Militar, que, em vez de salvar, estão atrasando e, em alguns casos, selando destinos trágicos.

 

O problema tem endereço certo: a centralização das chamadas de emergência em Vitória, capital. A mais de 250 quilômetros de distância, operadores recebem pedidos desesperados de socorro sem conhecer a cidade, seus bairros, suas ruas, e muito menos seus atalhos. Na prática, é como pedir ajuda a quem nunca pisou no mapa do problema. O resultado? Confusão, demora e desespero.

 

Relatos se acumulam: dificuldades na identificação de locais, comunicação truncada e um atraso que, em situações críticas, não é detalhe, é sentença. Em acidentes, práticas de crimes, incêndios ou emergências médicas, minutos não são apenas números. São vidas.

 

Na manhã de segunda-feira, 04, a tragédia deixou de ser estatística e ganhou rosto. Um idoso, figura conhecida na cidade e pai do atual presidente da Câmara de Vereadores, foi brutalmente atingido por uma carreta ao tentar atravessar uma avenida para encontrar o filho. Arrastado por mais de seis metros, ele ainda estava vivo quando o socorro foi acionado. Mas o tempo, esse que o sistema insiste em desperdiçar, não perdoou.

 

O Samu e o Corpo de Bombeiros Militar do Espírito Santo demoraram mais de 20 minutos para chegar. Vinte minutos que, em uma ocorrência dessa gravidade, equivalem a uma eternidade. Um policial que passava pelo local ainda tentou ajudar, mas era tarde demais para improvisos. A vítima chegou a ser levada para um hospital em Colatina, mas não resistiu. Para tristeza da família e amigos, morreu.

 


E junto com ele, cresce uma pergunta incômoda que ecoa nas ruas, nas casas e nas rodas de conversa da cidade: por que um Município do porte de Barra de São Francisco ainda depende de um sistema de emergência operado por quem não conhece sua realidade? Até agora, nenhuma resposta convincente. Nenhuma explicação técnica clara. Apenas o silêncio, esse velho cúmplice da negligência.

 

Especialistas já apontam o óbvio: centralização sem integração eficiente com equipes locais não é modernização, é falha estrutural. E quando essa falha atinge serviços essenciais, o problema deixa de ser administrativo e passa a ser jurídico. Estou falando de possível violação de direitos fundamentais: saúde, segurança, dignidade.

 

A insistência nesse modelo ineficaz levanta suspeitas graves de negligência, de má gestão, de falta de planejamento. E o pior: de normalização do inaceitável. A população está cansada de esperar. Cobra providências urgentes do Governo do Estado, exige transparência e, acima de tudo, respeito à vida.

 

Porque a realidade é dura e direta: se nada mudar, novas tragédias não serão surpresa, serão consequência. Diante da gravidade dos fatos, cresce a pressão para que o caso seja investigado com rigor pelo Ministério Público e demais órgãos de controle, antes que o próximo pedido de socorro se perca no caminho. Antes que mais uma vida seja medida em minutos de atraso. Antes que o silêncio continue matando.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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