Por *Elvécio Andrade
O que era para ser apenas uma cena curiosa, quase folclórica, terminou se transformando em um retrato cruel da sociedade tomada pela intolerância e pela violência. Em Marilândia, no Noroeste do Espírito Santo, um homem comemorava ter sido sorteado com um simples pedaço de linguiça em um bar na sexta-feira, 26, quando outro freguês, incomodado com a alegria alheia, decidiu iniciar uma discussão.
O que já seria absurdo ganhou contornos ainda mais revoltantes. Após as agressões físicas, o agressor sacou um revólver e passou a atirar para matar. A vítima só escapou porque pessoas que estavam no local impediram que os disparos atingissem seu alvo. Nem isso bastou para conter a fúria do criminoso, que perseguiu o veículo do homem pelas ruas na tentativa de concluir o homicídio.
Preso no dia seguinte, em João Neiva, o criminoso ainda indicou onde havia escondido a arma utilizada no crime. Agora responderá por tentativa de homicídio qualificado por motivo torpe. Primeiro foi conduzido à Delegacia de Polícia de Marilândia, onde foi autuado em flagrante, e depois encaminhado ao CDP de Colatina, onde está à disposição da justiça.
O caso provoca indignação porque revela uma realidade assustadora: a vida humana parece valer cada vez menos. Uma comemoração inocente foi suficiente para despertar um ódio capaz de transformar um momento de descontração em uma tentativa de assassinato. Não foi uma briga por patrimônio, nem por legítima defesa, mas por pura intolerância.
A surpresa manifestada pelo delegado é a mesma de toda a sociedade. Os envolvidos eram conhecidos na cidade e se conheciam mutuamente. Ainda assim, um motivo tão insignificante quase terminou em tragédia.
Quando alguém se dispõe a matar por causa de um pedaço de linguiça, fica evidente que o problema vai muito além desse episódio: é um alerta de que a violência banalizada e a incapacidade de conviver com as diferenças estão corroendo o tecido social.
Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.
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