Por *Elvécio Andrade
A tentativa de reescrever a
história de uma conquista pública tem causado indignação em Rio Bananal, no
Norte do Espírito Santo. É que o prefeito Bruno Pella (Podemos) passou a
divulgar que, após diálogo entre sua administração e o DER/ES (Departamento de
Estradas de Rodagem), o projeto das obras da ES-245, no trecho entre Rio
Bananal e Linhares, havia recebido adequações para ampliar a segurança,
melhorar a fluidez do trânsito e oferecer mais conforto aos motoristas.
Em suas divulgações, o
prefeito destaca mudanças como a readequação do Trevo Sangali, a implantação de
terceiras faixas em pontos estratégicos e a construção de acostamentos,
afirmando que essas alterações representam uma importante conquista de seu
governo, fruto do diálogo permanente com o Governo do Estado e o DER/ES. O problema
é que a população conhece a cronologia dos fatos. As intervenções na rodovia
não surgiram agora.
Elas foram anunciadas oficialmente pelo governador Renato Casagrande em 04 de novembro de 2023, durante visita ao Município, quando autorizou a publicação do edital para implantação de acostamentos e melhorias operacionais nas rodovias ES-245 e ES-248. Na ocasião, também foram anunciados 41,1 quilômetros de acostamentos, 46 abrigos para passageiros de ônibus na zona rural e nove passagens elevadas para travessia de pedestres, além de outros investimentos estaduais em infraestrutura e educação. O autor da indicação é o ex-deputado estadual Marcus Garcia, pré-candidato a deputado estadual nas próximas eleições.
Segundo pessoas que acompanharam o processo, essas obras são resultado das articulações realizadas durante a gestão do então prefeito Edimilson Eliziário (2021-2024), período em que ocorreram as tratativas que culminaram no anúncio oficial do Governo do Estado. Por isso, a narrativa adotada pela atual administração passou a ser questionada por moradores, que veem na divulgação uma tentativa de atribuir ao governo atual uma conquista cuja origem remonta à administração anterior.
Outro ponto que desperta
dúvidas diz respeito às supostas alterações no projeto. Mudanças dessa natureza
não acontecem por simples manifestação de vontade. Elas exigem elaboração
técnica, aprovação pelos órgãos competentes, disponibilidade orçamentária e,
dependendo da intervenção, até procedimentos de desapropriação.
Trata-se de um processo
burocrático que demanda tempo. Se as modificações realmente foram aprovadas
recentemente, a expectativa da população é simples: que a Prefeitura apresente
os documentos oficiais que comprovem essas alterações, garantindo transparência
sobre o que efetivamente foi modificado.
A repercussão nas redes
sociais demonstra que a estratégia de comunicação da Prefeitura não convenceu
parte dos moradores. As críticas se multiplicaram, com questionamentos sobre a
tentativa de transformar uma obra anunciada anos atrás em uma conquista
exclusiva da atual gestão.
Um morador, que preferiu não
se identificar, resumiu a insatisfação em um comentário que rapidamente
repercutiu: "Esse é o modus operandi da administração Bruno Pella, que
desde seu início nada fez de concreto no Município e, para mascarar sua
incompetência administrativa, tenta tomar para si obras conquistadas pela
administração anterior."
Enquanto a disputa pela
autoria política continua, a população espera menos marketing e mais
transparência. Afinal, obras públicas pertencem aos cidadãos, não aos
governantes de ocasião. O reconhecimento dos esforços de cada gestão deve ser
pautado pelos fatos e pela cronologia dos acontecimentos, e não pela
conveniência da propaganda oficial.
*Elvécio Andrade é
radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos
Constitucional e Administrativo.
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