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23/09/2026

Em Colatina polícia estava sendo monitorada o tempo todo por grupo de WhatsApp

Colatina está dominada pelo crime

Por *Elvécio Andrade

 

A tecnologia deveria servir para aproximar pessoas, facilitar a comunicação, melhorar serviços e tornar a vida mais segura, acabou sendo apropriada por quem vive do outro lado da lei. E quando isso acontece, o resultado é preocupante: o crime organizado ganha velocidade, comunicação e capacidade de reação. O caso da chamada Tropa do Urso, em Colatina, no Noroeste do Espírito Santo, é um exemplo assustador de como o crime conseguiu transformar uma simples ferramenta de comunicação em uma espécie de central de inteligência clandestina.

 

Segundo três denúncias apresentadas pelo Ministério Público do Espírito Santo, um grupo de WhatsApp chamado Foco, Força e Fé era utilizado por integrantes da organização para monitorar a movimentação das forças de segurança e transmitir informações em tempo real. Viaturas, blitzes, operações, prisões e deslocamentos policiais eram compartilhados entre olheiros e integrantes do grupo. Traduzindo para o português claro: enquanto a polícia tentava surpreender o criminoso, o criminoso tentava surpreender a polícia.

 

E isso é muito mais grave do que parece. A rapidez das mensagens permitiria que pontos de venda fossem fechados momentaneamente, drogas e armas fossem retiradas dos locais e integrantes evitassem abordagens e prisões em flagrante. Os bairros Vista da Serra, Perpétuo Socorro e Bela Vista estavam entre as áreas que recebiam atenção especial, segundo as acusações. É o velho “olheiro” do tráfico ganhando um upgrade tecnológico.

 

Antes, alguém ficava na esquina olhando a movimentação da polícia. Agora, a esquina pode caber dentro de um celular. E o negócio criminoso, ao que apontam as investigações, não terminava na venda de drogas. A estrutura descrita pelo Ministério Público envolvia cocaína, crack, maconha, ecstasy e lança-perfume, além de armas que poderiam ser transferidas de esconderijo conforme as informações sobre a movimentação policial. Havia também uma espécie de departamento financeiro do crime.

 

Segundo as denúncias, chaves Pix e contas bancárias de terceiros eram utilizadas para centralizar receitas e realizar pagamentos a fornecedores, reduzindo a necessidade de circulação de dinheiro em espécie. Ou seja, enquanto muita gente ainda associa tráfico de drogas a maços de dinheiro escondidos em gavetas, o crime organizado já descobriu que o sistema bancário e as ferramentas digitais também podem ser utilizados para movimentar seus negócios.

 

E existe ainda uma das partes mais perversas dessa engrenagem: a utilização de adolescentes. O MPES aponta que integrantes da organização também recrutavam jovens para atuar na comercialização de drogas e em tarefas de apoio. É assim que o crime se perpetua: não apenas vendendo drogas, mas também recrutando mão de obra jovem para alimentar a própria estrutura.

 


As denúncias apresentadas pelo Ministério Público atingem 42 pessoas. Segundo as informações divulgadas, 31 estavam presas temporariamente, quatro cumpriam prisão domiciliar e sete permaneciam foragidas, entre elas nomes apontados como integrantes da liderança da organização. E aqui está uma das grandes ironias deste episódio. O nome do grupo era Foco, Força e Fé. Foco, força e fé para quê?

 

Para avisar quando a polícia chegava? Para esconder droga? Para retirar armas de esconderijos? Para proteger pontos de tráfico? Se as acusações do Ministério Público forem confirmadas pela Justiça, talvez seja difícil encontrar nome mais contraditório para uma ferramenta utilizada em uma estrutura criminosa. Mas existe algo ainda mais preocupante nessa história: o crime organizado está aprendendo.

 

Aprendendo a utilizar tecnologia, aprendendo a movimentar dinheiro digitalmente, aprendendo a descentralizar estoques, aprendendo a monitorar forças de segurança, aprendendo a utilizar redes de comunicação fechadas e, principalmente, aprendendo que informação, no mundo do crime, também é poder. A polícia não enfrenta mais apenas o sujeito armado na esquina.

 

Enfrenta estruturas organizadas, conectadas, capazes de trocar informações em segundos e adaptar suas operações de acordo com o que enxergam nas ruas. Por isso, combater o crime no século XXI exige muito mais do que colocar uma viatura na rua. É preciso inteligência, investigação, integração entre as forças de segurança, tecnologia, rastreamento financeiro e capacidade de antecipar os movimentos das organizações criminosas.

 

Porque enquanto o Estado estiver tentando descobrir onde o criminoso está, talvez o criminoso já saiba onde a polícia está. E esse é o tipo de inversão que nenhuma sociedade pode aceitar como normal. A tecnologia não é criminosa, o celular não é criminoso, o WhatsApp não é criminoso. Criminoso é quem transforma ferramentas criadas para comunicação e convivência em instrumentos para proteger tráfico, armas e violência.

 

E quando o crime passa a usar a tecnologia melhor do que o Estado consegue combatê-lo, não estamos diante de um simples problema de aplicativo. Estamos diante de um problema de inteligência, segurança pública e capacidade de resposta. O criminoso pode até estar atrás da tela. Mas os olhos do Estado precisam estar muito além dela.

 

*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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