Por *Elvécio Andrade
A tecnologia deveria servir para
aproximar pessoas, facilitar a comunicação, melhorar serviços e tornar a vida
mais segura, acabou sendo apropriada por quem vive do outro lado da lei. E
quando isso acontece, o resultado é preocupante: o crime organizado ganha
velocidade, comunicação e capacidade de reação. O caso da chamada Tropa do Urso, em Colatina, no Noroeste
do Espírito Santo, é um exemplo assustador de como o crime conseguiu
transformar uma simples ferramenta de comunicação em uma espécie de central de
inteligência clandestina.
Segundo três denúncias apresentadas
pelo Ministério Público do Espírito Santo, um grupo de WhatsApp chamado Foco, Força e Fé era utilizado por
integrantes da organização para monitorar a movimentação das forças de
segurança e transmitir informações em tempo real. Viaturas, blitzes, operações,
prisões e deslocamentos policiais eram compartilhados entre olheiros e
integrantes do grupo. Traduzindo para o português claro: enquanto a polícia tentava
surpreender o criminoso, o criminoso tentava surpreender a polícia.
E isso é muito mais grave do que
parece. A rapidez das mensagens permitiria que pontos de venda fossem fechados
momentaneamente, drogas e armas fossem retiradas dos locais e integrantes
evitassem abordagens e prisões em flagrante. Os bairros Vista da Serra,
Perpétuo Socorro e Bela Vista estavam entre as áreas que recebiam atenção
especial, segundo as acusações. É o velho “olheiro” do tráfico ganhando um
upgrade tecnológico.
Antes, alguém ficava na esquina
olhando a movimentação da polícia. Agora, a esquina pode caber dentro de um
celular. E o negócio criminoso, ao que apontam as investigações, não terminava
na venda de drogas. A estrutura descrita pelo Ministério Público envolvia
cocaína, crack, maconha, ecstasy e lança-perfume, além de armas que poderiam
ser transferidas de esconderijo conforme as informações sobre a movimentação
policial. Havia também uma espécie de departamento financeiro do crime.
Segundo as denúncias, chaves Pix e
contas bancárias de terceiros eram utilizadas para centralizar receitas e
realizar pagamentos a fornecedores, reduzindo a necessidade de circulação de
dinheiro em espécie. Ou seja, enquanto muita gente ainda associa tráfico de
drogas a maços de dinheiro escondidos em gavetas, o crime organizado já
descobriu que o sistema bancário e as ferramentas digitais também podem ser
utilizados para movimentar seus negócios.
E existe ainda uma das partes mais
perversas dessa engrenagem: a utilização de adolescentes. O MPES aponta que
integrantes da organização também recrutavam jovens para atuar na
comercialização de drogas e em tarefas de apoio. É assim que o crime se
perpetua: não apenas vendendo drogas, mas também recrutando mão de obra jovem
para alimentar a própria estrutura.
As denúncias apresentadas pelo
Ministério Público atingem 42 pessoas. Segundo as informações divulgadas, 31
estavam presas temporariamente, quatro cumpriam prisão domiciliar e sete
permaneciam foragidas, entre elas nomes apontados como integrantes da liderança
da organização. E aqui está uma das grandes ironias deste episódio. O nome do
grupo era Foco, Força e Fé. Foco,
força e fé para quê?
Para avisar quando a polícia chegava?
Para esconder droga? Para retirar armas de esconderijos? Para proteger pontos
de tráfico? Se as acusações do Ministério Público forem confirmadas pela
Justiça, talvez seja difícil encontrar nome mais contraditório para uma
ferramenta utilizada em uma estrutura criminosa. Mas existe algo ainda mais
preocupante nessa história: o crime organizado está aprendendo.
Aprendendo a utilizar tecnologia, aprendendo
a movimentar dinheiro digitalmente, aprendendo a descentralizar estoques, aprendendo
a monitorar forças de segurança, aprendendo a utilizar redes de comunicação
fechadas e, principalmente, aprendendo que informação, no mundo do crime,
também é poder. A polícia não enfrenta mais apenas o sujeito armado na esquina.
Enfrenta estruturas organizadas,
conectadas, capazes de trocar informações em segundos e adaptar suas operações
de acordo com o que enxergam nas ruas. Por isso, combater o crime no século XXI
exige muito mais do que colocar uma viatura na rua. É preciso inteligência,
investigação, integração entre as forças de segurança, tecnologia, rastreamento
financeiro e capacidade de antecipar os movimentos das organizações criminosas.
Porque enquanto o Estado estiver
tentando descobrir onde o criminoso está, talvez o criminoso já saiba onde a
polícia está. E esse é o tipo de inversão que nenhuma sociedade pode aceitar
como normal. A tecnologia não é criminosa, o celular não é criminoso, o
WhatsApp não é criminoso. Criminoso é quem transforma ferramentas criadas para
comunicação e convivência em instrumentos para proteger tráfico, armas e
violência.
E quando o crime passa a usar a
tecnologia melhor do que o Estado consegue combatê-lo, não estamos diante de um
simples problema de aplicativo. Estamos diante de um problema de inteligência,
segurança pública e capacidade de resposta. O criminoso pode até estar atrás da
tela. Mas os olhos do Estado precisam estar muito além dela.
*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado
especialista em direitos Constitucional e Administrativo.
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