Por *Elvécio Andrade
Hoje acordei um tanto quanto
saudosista. Fiquei lembrando de uma época em que o Brasil tinha uma imprensa
que realmente informava, em vez de transformar cada notícia numa espécie de
enigma policial para o leitor descobrir o que, afinal, aconteceu. Vieram as
redes sociais. E, com elas, uma avalanche de informação, e também de
desinformação. Em muitos veículos, o jornalismo parece ter adquirido uma doença
crônica: a epidemia do “teria” e do “seria”.
O sujeito é flagrado roubando milhões
de reais, a polícia recupera o dinheiro, existem imagens, documentos e
testemunhas, mas a manchete vem assim: Suspeito
teria roubado milhões de reais. Teria? Suspeito? Como assim suspeito? O
cidadão estava com o dinheiro roubado debaixo do braço. Em outro caso, o
indivíduo é preso em flagrante, com a arma utilizada no crime e o cadáver ao
lado, mas lá vem a manchete: Homem seria
o autor do homicídio. Seria?
Se há elementos concretos e
devidamente apurados, o jornalismo não precisa transformar uma notícia em
sessão de espiritismo, trabalhando com hipóteses quando os fatos já estão
diante do repórter. O problema é que o excesso de cautela, quando mal
utilizado, acaba produzindo exatamente o contrário do que deveria produzir:
confusão e dúvida.
É evidente que jornalismo sério
precisa respeitar a presunção de inocência, evitar condenações antecipadas e
distinguir investigação, acusação e condenação. Isso não significa escrever
como se estivesse permanentemente com medo da própria sombra. Se o fato está
comprovado, informe o fato; se é investigação, diga que é investigação; se
alguém foi preso em flagrante, diga que foi preso em flagrante, se foi
denunciado pelo Ministério Público, diga que foi denunciado.
Se foi indiciado, diga que foi
indiciado; se foi condenado, diga que foi condenado. Cada palavra tem um
significado. E jornalismo não é lugar para preguiça vocabular. Jornalismo é
profissão para quem não tem medo. Outra mania que tomou conta do noticiário é
chamar praticamente todo criminoso de “suspeito”.
O indivíduo pode ter sido preso em
flagrante, confessado o crime, sido formalmente indiciado e até responder a uma
ação penal. Ainda assim, a manchete aparece: Suspeito é preso após matar fulano. Ora, vamos combinar. Uma coisa
é ser suspeito durante uma investigação. Outra é ser formalmente acusado, ser
indiciado, ser réu. E outra, completamente diferente, é ser condenado. Misturar
tudo no mesmo saco não é cautela jornalística. É falta de precisão.
E há uma ironia nisso tudo: de tanto
chamar criminoso de “suspeito”, daqui a pouco o verdadeiro suspeito vai
precisar ser chamado de quê? “Possível talvez eventualmente suspeito”? O
jornalismo precisa, sim, ter responsabilidade. Mas responsabilidade não é
covardia, não é preguiça, não é transformar toda notícia numa coleção de verbos
no futuro do pretérito. Teria. Seria. Poderia. Estaria. Teria sido. Seria o
autor.
Parece que alguns repórteres
descobriram uma fórmula mágica para nunca afirmar absolutamente nada. E o
leitor fica olhando para a tela tentando descobrir se houve crime, se não houve
crime, se alguém roubou, se alguém matou ou se tudo não passou de uma
possibilidade metafísica. A imprensa não existe para aumentar a dúvida quando
os fatos já foram devidamente apurados. Existe para esclarecer.
Jornalista não precisa condenar
ninguém, pois quem condena é a Justiça, mas jornalista também não precisa
fingir que não enxerga aquilo que está diante dos seus olhos. Suspeito é
suspeito, acusado é acusado, indiciado é indiciado, réu é réu e condenado é
condenado. Parece simples, e é. Talvez esteja faltando apenas uma coisa que
deveria ser básica em qualquer redação: apuração. Porque, quando o repórter não
sabe, deve investigar. Quando não tem certeza, deve apurar.
Quando não possui elementos
suficientes, deve deixar claro que se trata de uma hipótese. Mas, quando o fato
está comprovado, pelo amor de Deus: informe. Chega de jornalismo de “teria” e
“seria”. Chega de manchete escrita com o pé no acelerador e o cérebro no freio.
Porque jornalismo sério não é tribunal, mas também não é sessão de dúvidas. Jornalismo
é informação. E informação exige coragem, precisão e responsabilidade.
*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado
especialista em direitos Constitucional e Administrativo.
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