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22/09/2026

Jornalismo Nutella e a epidemia de “teria”, “seria”, onde o criminoso é chamado de suspeito

Imprensa feita por medrosos

Por *Elvécio Andrade

 

Hoje acordei um tanto quanto saudosista. Fiquei lembrando de uma época em que o Brasil tinha uma imprensa que realmente informava, em vez de transformar cada notícia numa espécie de enigma policial para o leitor descobrir o que, afinal, aconteceu. Vieram as redes sociais. E, com elas, uma avalanche de informação, e também de desinformação. Em muitos veículos, o jornalismo parece ter adquirido uma doença crônica: a epidemia do “teria” e do “seria”.

 

O sujeito é flagrado roubando milhões de reais, a polícia recupera o dinheiro, existem imagens, documentos e testemunhas, mas a manchete vem assim: Suspeito teria roubado milhões de reais. Teria? Suspeito? Como assim suspeito? O cidadão estava com o dinheiro roubado debaixo do braço. Em outro caso, o indivíduo é preso em flagrante, com a arma utilizada no crime e o cadáver ao lado, mas lá vem a manchete: Homem seria o autor do homicídio. Seria?

 

Se há elementos concretos e devidamente apurados, o jornalismo não precisa transformar uma notícia em sessão de espiritismo, trabalhando com hipóteses quando os fatos já estão diante do repórter. O problema é que o excesso de cautela, quando mal utilizado, acaba produzindo exatamente o contrário do que deveria produzir: confusão e dúvida.

 

É evidente que jornalismo sério precisa respeitar a presunção de inocência, evitar condenações antecipadas e distinguir investigação, acusação e condenação. Isso não significa escrever como se estivesse permanentemente com medo da própria sombra. Se o fato está comprovado, informe o fato; se é investigação, diga que é investigação; se alguém foi preso em flagrante, diga que foi preso em flagrante, se foi denunciado pelo Ministério Público, diga que foi denunciado.

 

Se foi indiciado, diga que foi indiciado; se foi condenado, diga que foi condenado. Cada palavra tem um significado. E jornalismo não é lugar para preguiça vocabular. Jornalismo é profissão para quem não tem medo. Outra mania que tomou conta do noticiário é chamar praticamente todo criminoso de “suspeito”.

 


O indivíduo pode ter sido preso em flagrante, confessado o crime, sido formalmente indiciado e até responder a uma ação penal. Ainda assim, a manchete aparece: Suspeito é preso após matar fulano. Ora, vamos combinar. Uma coisa é ser suspeito durante uma investigação. Outra é ser formalmente acusado, ser indiciado, ser réu. E outra, completamente diferente, é ser condenado. Misturar tudo no mesmo saco não é cautela jornalística. É falta de precisão.

 

E há uma ironia nisso tudo: de tanto chamar criminoso de “suspeito”, daqui a pouco o verdadeiro suspeito vai precisar ser chamado de quê? “Possível talvez eventualmente suspeito”? O jornalismo precisa, sim, ter responsabilidade. Mas responsabilidade não é covardia, não é preguiça, não é transformar toda notícia numa coleção de verbos no futuro do pretérito. Teria. Seria. Poderia. Estaria. Teria sido. Seria o autor.

 

Parece que alguns repórteres descobriram uma fórmula mágica para nunca afirmar absolutamente nada. E o leitor fica olhando para a tela tentando descobrir se houve crime, se não houve crime, se alguém roubou, se alguém matou ou se tudo não passou de uma possibilidade metafísica. A imprensa não existe para aumentar a dúvida quando os fatos já foram devidamente apurados. Existe para esclarecer.

 

Jornalista não precisa condenar ninguém, pois quem condena é a Justiça, mas jornalista também não precisa fingir que não enxerga aquilo que está diante dos seus olhos. Suspeito é suspeito, acusado é acusado, indiciado é indiciado, réu é réu e condenado é condenado. Parece simples, e é. Talvez esteja faltando apenas uma coisa que deveria ser básica em qualquer redação: apuração. Porque, quando o repórter não sabe, deve investigar. Quando não tem certeza, deve apurar.

 

Quando não possui elementos suficientes, deve deixar claro que se trata de uma hipótese. Mas, quando o fato está comprovado, pelo amor de Deus: informe. Chega de jornalismo de “teria” e “seria”. Chega de manchete escrita com o pé no acelerador e o cérebro no freio. Porque jornalismo sério não é tribunal, mas também não é sessão de dúvidas. Jornalismo é informação. E informação exige coragem, precisão e responsabilidade.

 

*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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