Por *Elvécio Andrade
Nos meados dos anos 1980, a periferia
paulistana vivia à sombra da violência, do abandono estatal e da impunidade em
virtude do desgoverno da Ditadura Militar. Foi nesse cenário de desespero que
emergiu uma das figuras mais emblemáticas e controversas do imaginário popular
de São Paulo: Francisco Vital da Silva, eternizado pelo apelido que arrepiava
criminosos e dividia a opinião pública: Chico Pé de Pato.
O novo romance histórico do escritor Elvécio
Andrade: A saga de Chico Pé de Pato resgata em detalhes dramáticos a
vida do migrante baiano e dono de bar no Itaim Paulista que, após ter sua casa
invadida e sua filha menor e esposa estupradas brutalmente, decidiu dispensar a
lentidão das autoridades e fazer justiça com as próprias mãos.
A obra literária reconstitui a transformação do
comerciante de vida pacata em um caçador implacável. Marcado por um defeito
físico nos pés que deixava pegadas no formato característico das "dez para
as duas", Francisco tornou-se a assinatura do pavor nos becos e travessas
da Zona Leste.
Alçado à condição de "herói das ruas"
pela cobertura espetacularizada do jornal Notícias Populares, Chico
Pé de Pato não se limitou à vingança pessoal. Em pouco tempo, seu bar virou
um ponto de romaria para moradores e comerciantes desesperados, transformando-o
no tribunal paralelo de todo um bairro.
Com uma narrativa envolvente e ritmo
cinematográfico, o livro acompanha os momentos mais marcantes e cruciais da
história: a caçada inicial, o cerco metódico e silencioso aos agressores de sua
filha e de sua esposa, a lista negra, a criação do caderno de denúncias que
ditava a ordem na periferia esquecida, o erro fatal, a trágica noite no Jardim
dos Ipês em que o combate ao crime resultou na morte acidental de um policial
militar a paisana.
O livro narra também a histórica mediação do
radialista Afanásio Jazadji e a comoção popular que levou milhares de pessoas a
protestarem pela libertação do justiceiro no Fórum de São Miguel Paulista, o
desfecho dramático, os bastidores do confinamento na Penitenciária de Franco da
Rocha e o trágico motim de 1987.
Mais do que um Crime Story, o livro é um retrato
do Brasil sob administração de militares corruptos, torturadores e assassinos,
que ao invés de investirem na segurança pública, educação, saúde,
infraestrutura etc, preferiam perseguir estudantes, professores, jornalistas,
escritores, artistas, intelectuais ou qualquer ser com capacidade mínima para
questionar os absurdos que eram praticados pela Ditadura Militar.
Muito além do suspense e do ritmo frenético das
crônicas policiais, A saga de Chico Pé de Pato promove uma profunda
reflexão sobre as falhas do sistema de segurança pública e as consequências
sociais do vigilantismo.
A obra expõe como a ausência do Estado de
Direito abre margem para o surgimento de tribunais paralelos, uma engrenagem
violenta que, em vez de pacificar, acaba por consumir seus próprios criadores.
Em breve o livro estará disponível para
leitores apaixonados por romances históricos, true crime e crônicas urbanas
brasileiras..
*Elvécio
Andrade é radialista,
jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e
Administrativo.
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