Por *Elvécio Andrade
Há coisas na política que desafiam até a
memória. Um vereador, cuja trajetória política, durante anos sempre contou com
o apoio do atual prefeito, desde os tempos em que ainda era um reles peão de
rodeio, passando por momentos de dificuldade profissional, quando foi acolhido
pela administração municipal, até sucessivas candidaturas e a própria
presidência da Câmara em 2013, agora resolveu transformar em alvo justamente
aquele que tantas vezes lhe estendeu a mão.
A política, evidentemente, é dinâmica. Apoios
mudam, alianças terminam e ninguém é obrigado a permanecer eternamente ao lado
de ninguém. Mas uma coisa é mudar de posição; outra, bem diferente, é agir como
se tudo o que foi feito pela cidade tivesse de ser combatido apenas porque
deixou de servir a determinado projeto político. E é aí que começa o
espetáculo.
Barra de São Francisco vem passando por uma
série de intervenções urbanas e sociais. O transporte coletivo gratuito, por
exemplo, está em funcionamento e atende moradores de diferentes bairros e
regiões, ligando áreas residenciais ao Centro e a serviços públicos. Na
infraestrutura, a Prefeitura realiza obras e serviços em bairros e distritos,
enquanto o Centro recebe uma intervenção destinada à acessibilidade, segurança
e melhoria da circulação de pedestres.
E justamente quando a cidade começa a olhar
para frente, aparece o vereador capiau com os olhos voltados para trás. O alvo
da vez é o Calçadão da Avenida Jones dos Santos Neves. O projeto prevê
ampliação do espaço destinado aos pedestres, piso antiderrapante, piso tátil,
rampas de acessibilidade e revitalização do canteiro central, cuja intervenção
pretende melhorar a mobilidade e contribuir para a revitalização da principal
área comercial da cidade.
Ou seja: estamos falando de urbanização,
acessibilidade, segurança, mobilidade e valorização do Centro. Mas, para o
vereador, tudo isso virou motivo para fazer campanha contra a obra nas redes
sociais. É preciso perguntar: qual é exatamente o problema em tornar o Centro
mais acessível, mais organizado e mais agradável para quem compra, trabalha,
circula ou simplesmente precisa passar por ali?
Se existem problemas técnicos, que sejam apontados.
Se existem falhas no projeto, que sejam demonstradas. Se há irregularidades,
que sejam denunciadas aos órgãos competentes. Se o custo da obra preocupa, que
sejam apresentados números, documentos e alternativas. Isso é exercer
fiscalização. O que não parece razoável é transformar qualquer obra de
modernização em motivo para uma cruzada política contra o desenvolvimento do Município.
Até porque oposição responsável não é aquela
que diz “não” para tudo. É aquela que consegue dizer onde está o problema,
apresentar uma solução e defender aquilo que efetivamente interessa à
população. Barra de São Francisco precisa de vereadores fiscalizadores,
críticos e independentes. Precisa, sim, de homens públicos que questionem o
prefeito quando houver motivo. Mas também precisa daqueles que tenham a
grandeza de reconhecer quando uma iniciativa beneficia a coletividade.
Porque vereador não foi eleito para ser
torcedor organizado de obra nenhuma, muito menos para transformar a cidade em
campo de batalha de ressentimentos políticos. E há uma pergunta que deveria
incomodar qualquer agente público: quando a cidade ganha, quem perde? Se o
comércio pode ser valorizado, se o pedestre ganha espaço, se pessoas com
deficiência passam a ter melhores condições de circulação, se o Centro fica
mais organizado e se a mobilidade urbana melhora, por que alguém deveria ser
contra?
A menos, evidentemente, que o problema não
esteja na obra. Talvez esteja na política. E aí fica ainda mais curioso. Porque
quem passou tantos anos recebendo apoio político, espaço e oportunidades de um
determinado grupo não deveria ter memória seletiva a ponto de descobrir,
somente depois de romper politicamente, que tudo aquilo que antes parecia bom
passou a ser ruim. A cidade não pode ser administrada pelo retrovisor.
Barra de São Francisco não pode ficar refém de
vereador que parece acreditar que desenvolvimento urbano é uma ameaça e que
modernização é pecado. O mundo mudou, as cidades mudaram, as necessidades da
população mudaram. Só parece não ter mudado a cabeça de alguns políticos. Enquanto
a cidade abre espaço para o futuro, há quem queira puxá-la de volta para o
passado.
E talvez esteja na hora de avisar ao ilustre
vereador que Barra de São Francisco não é propriedade de prefeito, vereador ou
grupo político algum. A cidade pertence ao povo. E o povo tem todo o direito de
querer uma cidade mais bonita, acessível, organizada, moderna e próspera. Quem
quiser fiscalizar, fiscalize, quem quiser criticar, critique, quem tiver uma
proposta melhor, apresente. Mas tentar transformar progresso em problema e
modernização em inimiga da população é outra história. E essa, sinceramente,
parece mais adequada ao século passado. Ou, quem sabe, às cavernas.
*Elvécio
Andrade é radialista,
jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e
Administrativo.
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