Por *Elvécio Andrade
Era uma noite aparentemente tranquila
em São Roque do Canaã, no Sul do Espírito Santo. As ruas dormiam, as casas
repousavam e os cofres públicos, ingenuamente, acreditavam estar seguros. Mas,
nas profundezas da noite, um estranho ruído começou a ecoar. Primeiro, um vento
gelado. Depois, uma névoa rastejante. E, finalmente, uma lápide começou a se
mover. CRAAAAAC! E do interior do sepulcro emergiu ela novamente: A criatura
que vem aterrorizando os cofres públicos de pequenas cidades brasileiras.
Ana Castela, a chamada Vampira dos Recursos Públicos. Com os
olhos brilhando diante de uma nova oportunidade e os dentes afiados para morder
mais uma generosa fatia do dinheiro dos contribuintes, a vampira atravessou a
escuridão em direção a São Roque do Canaã. Seu alvo? R$ 900 mil. Isso mesmo. Novecentos
mil reais para um único cachê. E a cidade escolhida para o banquete financeiro
tem aproximadamente 11 mil habitantes.
São Roque do Canaã possui apenas
341,94 quilômetros quadrados. Segundo o Censo de 2022, eram 10.886 habitantes,
número estimado em 11.256 em 2025. Mas existe um detalhe que transforma a
história de terror em algo ainda mais assustador. Segundo os dados
apresentados, 33,4% da população vivem com rendimento de até meio salário
mínimo. Ou seja: enquanto uma parcela significativa da população precisa fazer
malabarismo para sobreviver, a vampira chega à cidade com uma sede
aparentemente insaciável.
E não é sede de água. É sede de
dinheiro. Muito dinheiro. A mordida será dada durante a tradicional Festa do Peão de São Roque do Canaã,
marcada para acontecer entre os dias 18 e 20 de setembro. E o cachê de R$ 900
mil é apenas o começo da história. Porque o show não se monta sozinho. Ainda
entram na conta palco, som, iluminação, segurança, estrutura, hospedagem,
transporte, outras atrações e uma verdadeira procissão de despesas que costuma
acompanhar esses megaeventos.
No final, o contribuinte pode
descobrir que não foi apenas uma vampira que entrou no Município. Foi um
verdadeiro exército de criaturas sedentas pelo dinheiro público. E aqui surge a
pergunta que deveria ecoar pelos corredores da prefeitura: quanto custa uma
festa para uma cidade pequena? E, principalmente: quanto custa deixar de
investir esse dinheiro em saúde, educação, infraestrutura, limpeza urbana,
assistência social e outros serviços que realmente melhoram a vida da
população?
Não se trata de ser contra festas, contra
artistas, e muito menos de querer acabar com a cultura ou com o entretenimento.
A questão é outra. É saber se uma cidade com pouco mais de 11 mil habitantes,
onde um terço da população possui rendimento de até meio salário mínimo,
realmente deveria desembolsar R$ 900 mil em um único cachê artístico. Porque R$
900 mil não são moedas encontradas atrás do sofá da prefeitura. É dinheiro
público, arrecadado dos cidadãos, que sai do bolso de quem trabalha, paga
impostos e espera, em troca, serviços públicos minimamente decentes.
Enquanto isso, nos palcos, as luzes
se acendem, os refletores brilham, a multidão grita e, nos bastidores, talvez o
contribuinte devesse ouvir outro som: o barulho dos cofres públicos sendo
drenados. E a vampira, satisfeita, limpa os dentes, ajeita o cabelo e procura o
próximo Município no mapa. Porque aparentemente o Brasil descobriu uma nova
modalidade de turismo: o turismo vampiresco dos cachês milionários pagos com
dinheiro público. São Roque do Canaã que se cuide.
Porque quando a Vampira dos Recursos Públicos emerge do sepulcro, ela não vem atrás
de sangue.Vem atrás do dinheiro dos impostos. E, ao contrário dos filmes de
terror, aqui não existe alho, crucifixo ou estaca de madeira capaz de
protegê-la. Existe apenas uma coisa capaz de impedir o banquete: fiscalização,
transparência e uma população que não seja cúmplice, e que se recuse a assistir
passivamente ao dinheiro público escorrendo pelo ralo.
*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado
especialista em direitos Constitucional e Administrativo.
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