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09/09/2026

A Vampira dos Recursos Públicos ataca novamente. Agora em São Roque do Canaã

Ana Castela, a Vampira dos Recursos Públicos

Por *Elvécio Andrade

 

Era uma noite aparentemente tranquila em São Roque do Canaã, no Sul do Espírito Santo. As ruas dormiam, as casas repousavam e os cofres públicos, ingenuamente, acreditavam estar seguros. Mas, nas profundezas da noite, um estranho ruído começou a ecoar. Primeiro, um vento gelado. Depois, uma névoa rastejante. E, finalmente, uma lápide começou a se mover. CRAAAAAC! E do interior do sepulcro emergiu ela novamente: A criatura que vem aterrorizando os cofres públicos de pequenas cidades brasileiras.

 

Ana Castela, a chamada Vampira dos Recursos Públicos. Com os olhos brilhando diante de uma nova oportunidade e os dentes afiados para morder mais uma generosa fatia do dinheiro dos contribuintes, a vampira atravessou a escuridão em direção a São Roque do Canaã. Seu alvo? R$ 900 mil. Isso mesmo. Novecentos mil reais para um único cachê. E a cidade escolhida para o banquete financeiro tem aproximadamente 11 mil habitantes.

 

São Roque do Canaã possui apenas 341,94 quilômetros quadrados. Segundo o Censo de 2022, eram 10.886 habitantes, número estimado em 11.256 em 2025. Mas existe um detalhe que transforma a história de terror em algo ainda mais assustador. Segundo os dados apresentados, 33,4% da população vivem com rendimento de até meio salário mínimo. Ou seja: enquanto uma parcela significativa da população precisa fazer malabarismo para sobreviver, a vampira chega à cidade com uma sede aparentemente insaciável.

 

E não é sede de água. É sede de dinheiro. Muito dinheiro. A mordida será dada durante a tradicional Festa do Peão de São Roque do Canaã, marcada para acontecer entre os dias 18 e 20 de setembro. E o cachê de R$ 900 mil é apenas o começo da história. Porque o show não se monta sozinho. Ainda entram na conta palco, som, iluminação, segurança, estrutura, hospedagem, transporte, outras atrações e uma verdadeira procissão de despesas que costuma acompanhar esses megaeventos.

 


No final, o contribuinte pode descobrir que não foi apenas uma vampira que entrou no Município. Foi um verdadeiro exército de criaturas sedentas pelo dinheiro público. E aqui surge a pergunta que deveria ecoar pelos corredores da prefeitura: quanto custa uma festa para uma cidade pequena? E, principalmente: quanto custa deixar de investir esse dinheiro em saúde, educação, infraestrutura, limpeza urbana, assistência social e outros serviços que realmente melhoram a vida da população?

 

Não se trata de ser contra festas, contra artistas, e muito menos de querer acabar com a cultura ou com o entretenimento. A questão é outra. É saber se uma cidade com pouco mais de 11 mil habitantes, onde um terço da população possui rendimento de até meio salário mínimo, realmente deveria desembolsar R$ 900 mil em um único cachê artístico. Porque R$ 900 mil não são moedas encontradas atrás do sofá da prefeitura. É dinheiro público, arrecadado dos cidadãos, que sai do bolso de quem trabalha, paga impostos e espera, em troca, serviços públicos minimamente decentes.

 

Enquanto isso, nos palcos, as luzes se acendem, os refletores brilham, a multidão grita e, nos bastidores, talvez o contribuinte devesse ouvir outro som: o barulho dos cofres públicos sendo drenados. E a vampira, satisfeita, limpa os dentes, ajeita o cabelo e procura o próximo Município no mapa. Porque aparentemente o Brasil descobriu uma nova modalidade de turismo: o turismo vampiresco dos cachês milionários pagos com dinheiro público. São Roque do Canaã que se cuide.

 

Porque quando a Vampira dos Recursos Públicos emerge do sepulcro, ela não vem atrás de sangue.Vem atrás do dinheiro dos impostos. E, ao contrário dos filmes de terror, aqui não existe alho, crucifixo ou estaca de madeira capaz de protegê-la. Existe apenas uma coisa capaz de impedir o banquete: fiscalização, transparência e uma população que não seja cúmplice, e que se recuse a assistir passivamente ao dinheiro público escorrendo pelo ralo.

 

*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado especialista em direitos Constitucional e Administrativo.

 

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