Por *Elvécio Andrade
A notícia que chegou do TRE/ES (Tribunal
Regional Eleitoral do Espírito Santo) é daquelas que fazem até o cafezinho
ficar mais gostoso: por unanimidade, o TRE/ES indeferiu o registro da
candidatura do deputado estadual bolsonarista Capitão Assumção (PL) à reeleição. O motivo não foi ideológico, não foi perseguição política e muito
menos alguma conspiração imaginária saída de um grupo de WhatsApp. Foi algo bem
mais prosaico: falta de quitação eleitoral.
O deputado tinha três multas
eleitorais que, juntas, somavam cerca de R$ 50 mil e não apresentou, no momento
adequado, a comprovação de pagamento ou parcelamento. Segundo a decisão
divulgada, o parcelamento só foi buscado posteriormente, em 26 de agosto. É
curioso. Para fazer discurso inflamado sobre ordem, disciplina, autoridade e
cumprimento das regras, muita gente se apresenta como especialista.
Mas, quando a regra bate à porta de
casa, aparece sempre uma explicação, um recurso, um parcelamento e,
naturalmente, a velha conversa de que tudo não passa de perseguição. Só que a
Justiça Eleitoral não funciona na base do discurso de palanque. E aqui existe
uma ironia deliciosa: um candidato que pretende continuar ocupando uma cadeira
no Legislativo foi barrado justamente por uma pendência eleitoral de natureza
financeira. É a velha história do faça o que eu digo, mas não repare muito no
que eu faço.
Claro que a decisão ainda pode ser
questionada por meio dos recursos cabíveis. Portanto, juridicamente, a história
ainda não terminou. Mas, enquanto isso, a Assembleia Legislativa do Espírito
Santo ganha mais um capítulo daquele espetáculo em que alguns parlamentares
parecem tratar o mandato como extensão de suas redes sociais: muito barulho,
muita postagem, muita indignação seletiva e pouca disposição para lembrar que
mandato parlamentar deveria significar trabalho, fiscalização, produção
legislativa e respeito às regras.
E se a Justiça confirmar
definitivamente o impedimento de Assumção, haverá ainda uma curiosa renovação
no cenário, com a saída de três políticos totalmente inúteis: Sérgio Meneguelli
(PSD) está na disputa pelo Senado, Lucas Polese (PL) concorre à Câmara dos
Deputados e Assumção enfrenta agora o obstáculo judicial. Ou seja, a próxima
legislatura poderá ter uma composição bastante diferente da atual.
Tomara que, independentemente de quem
ocupar as cadeiras, apareçam parlamentares interessados em fazer aquilo que
deveria ser obrigação de qualquer eleito: trabalhar pelo cidadão e não
transformar o mandato em palco permanente de espetáculo político. E existe
ainda uma pergunta que circula entre os capixabas e que merece resposta das
instituições competentes: o que aconteceu com a apuração do grave acidente envolvendo Capitão Assumção em janeiro de 2020, que terminou com a morte do motociclista Ernane Gomes da Silva?
O episódio precisa ser tratado com
seriedade, documentação e transparência. Se existem investigações, processos ou
procedimentos ainda pendentes, que sejam esclarecidos. Se houve
responsabilização, que seja conhecida. Se não houve, que também se explique por
quê. Porque Justiça não pode ter calendário conveniente e nem pode existir
Justiça tartaruga para uns e Justiça Fórmula 01 para outros.
O cidadão comum não tem mandato,
imunidade parlamentar ou milhares de seguidores para fazer barulho quando a
Justiça chega. Tem apenas a esperança de que as instituições funcionem. Por
isso, a pergunta que fica é simples: se as multas eleitorais chegaram primeiro,
será que um dia também chegarão ao fim as respostas que ainda faltam sobre
outros episódios envolvendo homens públicos?
A democracia não precisa de políticos
perfeitos. Precisa de políticos que entendam uma coisa básica: mandato não é
salvo-conduto, cargo público não é escudo e discurso de autoridade não coloca
ninguém acima das regras. A conta, pelo menos desta vez, chegou. E veio com
protocolo, decisão judicial e placar de 7 a 0. Agora aguarda-se a
responsabilização de Assumção pela morte trágica do motociclista, quando ele estava dirigindo em alta velocidade um carro oficial da Assembleia Legislativa em pleno recesso parlamentar.
*ElvécioAndrade é radialista, jornalista, escritor e advogado
especialista em direitos Constitucional e Administrativo.
Siga-nos no Instagram: @colatinanews2019, no Facebook
@sitecolatinanews, no TikTok: @colatinanews e se inscreva no nosso canal:
@colatinanews4085




Nenhum comentário:
Postar um comentário