Por *Elvécio Andrade
Parece que alguns políticos decoraram
apenas uma parte do Evangelho: a que fala ao microfone. A parte que manda
oferecer a outra face, aparentemente, ficou esquecida em algum banco de igreja.
O senador Magno Malta, conhecido por seu discurso inflamado, sua retórica
religiosa e sua pose de paladino dos bons costumes, está às voltas com uma
acusação que não combina exatamente com o personagem que costuma apresentar ao
eleitorado.
Segundo denúncia do Ministério
Público do Distrito Federal e Territórios, apresentada em 28 de agosto, o
senador desferiu um forte tapa no rosto de uma técnica de enfermagem dentro do
Hospital DF Star, em Brasília. E não foi exatamente um tapinha de “Deus te
abençoe”. Segundo o Ministério Público, a profissional apenas informou que
precisaria fazer uma compressa no braço do senador, depois que houve
extravasamento do contraste durante uma angiotomografia. A resposta, conforme a
acusação, veio em forma de agressão: um tapa no rosto da trabalhadora, que ficou
com o rosto dolorido e avermelhado. Seus óculos também foram danificados e
entortados.
É uma cena difícil de imaginar: de um
lado, uma mulher, profissional de enfermagem trabalhando; do outro, um senador
da República, conhecido por muitos como Malígno Malta, homem público acostumado a tribunas, câmeras, microfones e
discursos sobre moralidade. E, segundo a denúncia, entre uma compressa e outra,
entrou em cena a velha e conhecida carteirada da arrogância. O curioso é que o
senador costuma falar muito sobre valores cristãos. Mas, se a acusação for
confirmada pela Justiça, talvez seja necessário abrir novamente o capítulo
sobre “dar a outra face”.
Porque, nesse caso, quem acabou
oferecendo a outra face foi justamente a trabalhadora que estava ali para
cuidar dele. E a história fica ainda mais interessante quando entra em cena uma
proposta do Ministério Público: para evitar o prosseguimento do processo, Malta
recebeu a possibilidade de pagar R$ 6 mil ou cumprir 45 horas de serviços à
comunidade, mas, segundo o MP, recusou. Contando com possíveis privilégios, preferiu
enfrentar o processo. Pois então que enfrente.
Não existe problema algum em exercer
o direito de defesa. Todo acusado tem esse direito, inclusive um senador da
República. Mas também não deveria existir privilégio algum na hora de responder
perante a Justiça. Se as provas demonstrarem que houve agressão, que venha a
responsabilização. Sem imunidade moral, sem imunidade religiosa e,
principalmente, sem imunidade política para aquilo que a lei não protege.
Porque o Brasil já está cansado de
autoridades que adoram ensinar o cidadão a cumprir seus deveres, mas parecem
esquecer que elas próprias também precisam obedecer às regras. Magno Malta pode
ser senador, pode ter mandato, pode ter seguidores, pode subir em palanques,
discursar em igrejas e ocupar os espaços que quiser. Mas, diante da Justiça,
deveria ser simplesmente aquilo que todos nós somos: um cidadão sujeito à lei. E
se a agressão for comprovada, que a sentença seja firme.
Não por vingança, não por política e
não por ideologia. Mas para deixar uma mensagem que deveria ser óbvia em
qualquer democracia: cargo público não dá licença para agredir ninguém, muito
menos uma mulher. E talvez seja justamente aí que esteja a verdadeira prova de
fé: não no discurso bonito diante das câmeras, mas na capacidade de respeitar
uma trabalhadora quando ninguém está olhando. Porque falar de Cristo no
microfone é fácil. Difícil é lembrar dos ensinamentos dele quando a realidade
contraria o nosso ego.
*Elvécio Andrade é radialista, jornalista, escritor e advogado
especialista em direitos Constitucional e Administrativo.
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